Fonte: Renato Oliveira, Jornal da ACIL
Contas de aluguel, água, luz, telefone, celular, internet. Faturas de qualquer banco até o vencimento. Depósitos e saques. Depois que a lotérica passou a agregar parte dos serviços bancários, pagar contas ficou mais fácil e prático. Porém, a mudança no perfil daquela loja onde se costumava fazer a fezinha semanal aumentou a circulação de dinheiro. E virou alvo da ação de assaltantes.
Em 2011 o empresariado do segmento precisou tomar uma atitude para afastar os assaltos do cotidiano. Embalado por 2010, que teve média de quase um roubo por semana, o primeiro semestre do ano passado chegou a ter três assaltos em um só dia no mês de março. Outra lotérica foi “visitada” três vezes neste mesmo mês. Foi o estopim e obrigou o lotérico a blindar o caixa das lojas e procurar o poder público.
“Entre janeiro e junho do ano passado foi o período de assaltos mais crítico”, desabafa João Miguel Turcatto, um dos três lotéricos visitados pelos ladrões no dia 19 de março. Ele conta que só após blindar os caixas conseguiu voltar a trabalhar com “uma certa paz”. Mesmo dentro de um shopping center, que conta com esquema de segurança, o risco é alto.
Turcatto é presidente do Sindicato dos Empresários Lotéricos do Paraná (Sinlopar) e após o episódio resolveu encampar o projeto de blindagem da rede lotérica em todo Estado. “Isso (a blindagem) inibe a prática de roubo. Temos visto assaltos frustrados. Teve ladrão que contou para a polícia que tentou assaltar uma lotérica e quando viu que era blindada desistiu”, comenta.
Se comparado com 2010, quando foram registrados 43 assaltos, os números de 2011 indicam que a medida está surtindo efeito. Dados do ano passado apontam que houve uma queda nas ocorrências até novembro em levantamento feito pelo órgão. Foram computados 27 assaltos em lotéricas num período de 49 semanas (janeiro/novembro). Isso significa um roubo a cada 12,3 dias.
No ano retrasado a frequência de assaltos às lotéricas foi de quase uma vez por semana. Ou sendo mais preciso: um roubo a cada 8,48 dias. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP/PR). A SESP ressalva, porém, que os números são aproximados e acredita que a estatística possa ser superior.
Como a SESP não havia computado os delitos do mês de dezembro, logo não é possível comparar o percentual de redução dos assaltos entre os dois últimos anos na cidade. No entanto, Turcatto estima que houve uma redução em 35% nos assaltos às casas lotéricas após a blindagem no Paraná.
PM faz ronda para inibir assaltos
A tendência após a blindagem dos caixas é que os bandidos procurem alternativas na hora do assalto. E isso pode colocar a segurança do cliente ainda mais em risco. João Miguel Turcatto admite que não adianta proteger a casa lotérica e os funcionários e se esquecer do cliente. “Temos que encontrar um consenso”, resume o empresário.
Para ele, a blindagem deve ser considerada um componente que inibe a prática do roubo à lotérica. “Mas precisamos buscar alternativas com órgãos competentes em 2012. Continuar pedindo efetivo da polícia. Mas para não cair na rotina temos que cobrar diariamente a proteção do cliente”, defende.
Turcatto frisa que o Governo Estadual deu respaldo ao Sinlopar após reunião com o secretário de segurança, Reinaldo de Almeida César. Ele colocou o sindicato em contato direto com o comando da Polícia Militar em Londrina, durante o primeiro semestre, quando houve um pico nas ocorrências.
Atualmente a PM intensifica a ronda nas imediações de lotéricas entre os primeiros 10 dias do mês, período de pagamento de contas. “Na época da greve dos bancos, por exemplo, a PM deu cobertura passando com mais frequência principalmente nas lojas dos bairros. Não é permanente, mas também não podemos deixar (voltar ao que era)”, comenta.
O superintendente regional da Caixa Econômica Federal, Claudemir Desto, acredita que a blindagem não transforma o cliente numa espécie de “segundo alvo” dos assaltantes. “Eu discordo. O ladrão não vem assaltar o cliente, mas a lotérica. Cliente anda com pouco dinheiro no bolso”, responde.
Desto observa que “onde há blindagem o índice de assalto tende a zerar”. “Dentro da lotérica acontecem micro pagamentos. As transações são pequenas. No banco os saques de altas quantias é que chamam a atenção dos bandidos”, finaliza responsável pelas lotéricas em Londrina e Região Metropolitana.
40% das lotéricas foram blindadas nos últimos seis meses
O último a blindar sua casa lotérica em 2011 foi o empresário Aldemar Mascarenhas no último dia 20 de dezembro. Proprietário da uma loja situada na avenida Duque de Caxias, ele desconversa na hora de lembrar dos momentos de tensão que passou na mão de bandidos: “coisa ruim a gente tem que esquecer”, pontua.
Para se ter noção da dimensão que o problema vinha tomando, até colocar a lotérica no seguro estava mais complicado. Mascarenhas, que também é presidente da Federação Nacional dos Lotéricos (Fenal) conta que a seguradora queria triplicar o valor da apólice de sua loja.
“O nível de sinistros chegou a um índice tão alto que a saída das companhias de seguro foi aumentar o custo. Ninguém faz negócio para perder dinheiro. Mas com a lotérica blindada e transporte de valores o risco reduziu”, completa ele que gastou R$ 60 mil para blindar oito terminais de atendimento.
Claudemir Desto, superintendente da Caixa, contabiliza que somente no segundo semestre do ano passado foram blindadas 13 de um total de 32 lotéricas em Londrina. Isso significa que 40% empresários investiram em segurança. A blindagem de cada terminal (caixa) custa a partir de R$ 4 mil.
As principais cidades da Região Metropolitana de Londrina possuem 12 lotéricas dentre as quais metade já aderiu à blindagem. Por exemplo, Cambé tem cinco casas e duas blindadas. Em Rolândia, que tem quatro, e Ibiporã, com duas, metade dos empresários aderiu ao sistema de segurança. Em Jataizinho a única lotérica da cidade é blindada.
Como incentivo, o banco oferece aumento no “adicional de segurança” para lotéricas que financiaram a blindagem para ajuda a quitar o financiamento da própria blindagem. Dados fornecidos pela Caixa informam que a taxa de juros do projeto é 5% ao ano, somado o valor da Taxa de Juros a Longo Prazo (TJLP). “Isso corresponde a 0,9% de juros ao mês em até 48 meses. É uma taxa bem abaixo do mercado”, detalha Desto.

