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Ano 6 - Numero 97 - Julho 2010

Combate à violência
Na raiz do problema
Projeto quer prevenir a violência antes mesmo dela se manifestar trabalhando para que a criança aprenda desde pequena a importância dos valores morais, éticos e afetivos
Uma das pontas para a prevenção de situações de risco na adolescência começa a ser trabalhada em Londrina. Um projeto desenvolvido pelo Ministério Público quer cuidar do ser humano desde pequeno. O trabalho começou com a capacitação de professores que atuam em centros de educação infantil (CEIs) filantrópicos e municipais para, em longo prazo, ser mais uma ação no combate à violência protagonizada por adolescentes.
O projeto nasceu a partir de visitas feitas pela promotora da Vara da Infância e Juventude, Edina de Paula, aos CEIs, iniciadas no início do ano. Na ocasião, havia muitas reclamações de pais sobre os serviços das creches. Nessas visitas, a promotora afirma que verificou a ausência de atividades pedagógicas específicas para as fases de desenvolvimento da criança, de afetividade no tratamento com as crianças, entre outros pontos que precisam ser trabalhados.
Segundo a promotora, em alguns casos foi verificado que o projeto político pedagógico existia apenas no papel, para apresentar à Secretaria de Educação, quando solicitado. "Não era utilizado para aplicação das atividades na creche", afirma. Na maioria dos CEIs, completa ela, as atividades desenvolvidas não são compatíveis com a idade da criança. "Uma voluntária que tem uma filha de três anos foi atender crianças da mesma idade em uma creche e ao perguntar, por exemplo, 'o que o macaquinho faz? O que o macaquinho come?' as crianças não sabiam. Quer dizer, as crianças não sabem aquilo que já poderiam saber nessa fase. Elas estão muito defasadas", exemplifica. "Isso mostra o despreparo desses profissionais."
Com a capacitação, Edina de Paula pretende que as pessoas se deem conta da importância de saber se relacionar entre elas e percebam que isso vai fazer diferença nos resultados que poderão ser colhidos lá na frente, quando essas crianças forem adolescentes. "Com esse trabalho estamos mostrando como fazer. Porque hoje não podemos nem cobrar a atuação desses profissionais, porque estão muito despreparados."
O projeto pedagógico é coordenado pela pedagoga, com cursos na Unesco, Marta Matsubara. Ela explica que os profissionais serão capacitados para aprender o educar e o cuidar da criança pequena conforme determina a Diretriz Curricular Nacional da Educação Infantil. Segundo ela, a prática pedagógica, quando se fala de criança pequena (0 a 5 anos), se restringe a brincar com essa criança.
"A formação pessoal e social do ser humano está se perdendo na educação infantil e na educação em geral", explica. Essa formação, determinada pela Diretriz, embasada pelo Referencial Curricular Nacional para Educação, prevê a transmissão de princípios éticos, sensibilização para a diversidade e valores morais. "Essa parte dos valores morais, as escolas estão deixando a cargo da família. Só que cabe a ela a formação desses valores. A criança vem com os valores morais de casa, dos pais, que nem sempre é o melhor para sociedade. A escola tem que passar os valores morais corretos", define.
A pedagoga explica que está sendo trabalho o olhar destes profissionais para a escola como formadora de seres íntegros. "As crianças precisam ser vistas como seres com cabeça, coração e membros. Não estão ali apenas para brincar, pular, correr", afirma. "Estamos trabalhando para que o professor entenda a responsabilização profissional do ato de educar. Mostramos que eles são técnicos e não podem ficar errando nessa educação. Eles não são mãe. A mãe pode acertar e errar. O professor é um profissional, assim como o médico, ele também não pode errar."
Desenvolvimento em médio prazo - A capacitação dos professores da educação infantil filantrópica e municipal é um projeto que a promotora da Vara da Infância e Juventude, Edina de Paula, idealizou para ser desenvolvido durante cinco anos e envolve uma equipe multidisciplinar: pedagogos, psicólogos, entre outros. A primeira fase iniciou na última semana de junho, com a realização do primeiro módulo. De agosto a dezembro acontece o segundo módulo e em janeiro, o terceiro módulo. Serão 150 horas de capacitação.
No primeiro módulo foram capacitados todos os coordenadores e um ou dois professores de cada creche, atendendo pouco mais de 300 profissionais. A coordenadora pedagógica do projeto, Marta Matsubara, afirma que foram trabalhados os seguintes temas: apresentação do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil; da Diretriz Curricular Nacional de Educação Infantil; planejamento e ação sob o prisma de educar e cuidar da Diretriz; foi feito um paralelo entre a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases (LDB); o que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) preconiza para a educação infantil.
No segundo módulo, que terá duração de seis meses (a agosto a dezembro), a pedagoga diz que serão desmembradas cada uma das ações que devem ser desenvolvidas com as crianças na Educação Infantil. Como trabalhar a lógica, a afetividade, o letramento e muitos outros pontos. Cada um destes tópicos será trabalhado por especialistas e doutores na área. A gestão de CEIs e a captação de recursos são pontos que também serão contemplados através de capacitação do Sebrae. Em janeiro acontece o terceiro módulo, no qual os participantes vão apresentar seminários sobre como estão aplicando o conteúdo aprendido.
A promotora Edina de Paula afirma que alguns temas já estão sendo elencados, a partir da demanda, para a segunda fase que inicia em fevereiro do ano que vem. Entre eles: cidadania e ética. Ela acrescenta que empresários, universidades e escolas particulares envolveram-se na realização do primeiro módulo do projeto. Para que os professores pudessem ficar fora das creches durante uma semana, alunos de escolas particulares e universidades foram voluntários. "O Colégio Ateneu, por exemplo, iniciou com 30 alunos e terminou com 120 alunos. Agora decidiram adotar a creche", conta a promotora.
A participação dos empresários também foi fundamental para a realização do projeto. Vários participaram fornecendo brindes, café da manhã e bunners.



