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Ano 6 - Numero 96 - Junho 2010

Jornal da ACIL
Vida, negócio, memória

  • Ezídio da Silva (à esquerda): "Aqui mudou tudo. Eram oito funcionários, mas a modernidade chegou, as máquinas foram ocupando o lugar dos homens. Hoje são apenas três funcionários" 
Otávio Sampaio (à direita): "O diferencial atrai o cliente. Hoje em dia os empreendedores exigem conforto, praticidade e segurança. Tudo para realizar um bom negócio"
Cidade em Andares

Vida, negócio, memória

Históricos ou modernos, edifícios comerciais vão além da movimentação financeira, guardam histórias de uma cidade em constante desenvolvimento

Marta Ortega
Especial para a ACIL

Uma volta pelo centro da Cidade e é possível encontrar prédios que ao longo dos anos escrevem a história comercial de Londrina. Verdadeiros monumentos, arranha céus que abrigam curiosidades atrás de grandes e imponentes fachadas. Adaptados para atender a um público exigente, eles estão em constante modificação, respondendo à necessidade de modernização, sem deixar de lado os detalhes que fizeram e marcaram a história.

Não fossem essas edificações verticais, seria preciso "esticar" a Cidade para abrigar a todos. Os seis edifícios que ilustram essa matéria contêm quase 600 salas comerciais. Considerando um espaço médio de 70 metros quadrados, elas ocupam espaço superior a 40 mil metros quadrados. Em tese, cada edifício, transportado para edificações horizontais, ocuparia um quarteirão inteiro, nas quatro faces.

No Edifício Palácio do Comércio, localizado no coração de Londrina, na rua Minas Gerais, o visitante se depara com a estátua de Mercúrio, o deus do comércio. O prédio foi um dos primeiros construídos, quase no final da década de 70. Logo na entrada, fotos antigas contam a história do local que tinha apenas três andares quando foi inaugurado. Ao lado esquerdo, ficava a prefeitura, onde hoje está o Banco Bradesco. Do lado direito, o edifício residencial, hoje transformado em loja.

Pequeno demais para a pretensão da Cidade, o prédio de três andares foi demolido e, no lugar, construído um imponente edifício de 20 andares. Visão de que os negócios na Pequena Londres poderiam prosperar. Era dezembro de 1976 quando as 80 salas ficaram prontas e o prédio foi inaugurado. A estátua de Mercúrio, que antes ficava em cima do prédio, desceu e ganhou espaço em um jardim. Aos poucos, os negócios foram se instalando. Hoje, mais de 90% das salas abrigam escritórios de advocacia. Depois vieram as firmas de seguro, as financeiras, os cartórios, as rádios.

O primeiro andar e parte do segundo foram ocupados pela Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL), responsável pela grande movimentação de pessoas no Edifício. São seis mil visitantes em média, por dia, no prédio. Gente que entra e sai, negocia, trabalha, vive o agitado setor comercial. Gente, enumerada uma a uma, num dia em que seu Luciano, o zelador, teve o capricho de contar (veja box).

Em vários outros prédios espalhados pela Cidade, o perfil é o mesmo. As milhares de salas são ocupadas por profissionais liberais, entre eles, médicos, dentistas, advogados e empresários do setor de comunicação, turismo, alimentos, confecção, decoração. Infinidade de serviços capaz de mover o setor comercial, gerando empregos, renda e desenvolvimento desde o começo de Londrina.

De acordo com o Sindicato da Habitação e Condomínios (Secovi) de Londrina, a Cidade tem 1.482 condomínios, dos quais 128 são estritamente comerciais.

Década de 50 - O Edifício Autolon, inaugurado em 1951, é uma obra dos arquitetos Vilanova Artigas e Castaldi e se incorporou ao cenário mais moderno de hoje, na esquina das ruas Minas Gerais com Maranhão. A entrada com escada e uma ampla sacada oferece ao visitante uma bela vista de um dos principais pontos comerciais da cidade.

O prédio guarda características de 58 anos atrás. Basta andar pelos longos corredores estreitos e se deparar com as 15 salas instaladas em cada um dos seis andares. São 84 salas, basicamente com escritórios de advocacia e contabilidade, além de salões de beleza e outros prestadores de serviços.

O desgaste do tempo tirou do local características únicas, como o antigo elevador com portas sanfonadas. No ano passado, sem mais condições de manutenção, os dois elevadores instalados logo na entrada deram lugar a modelos mais modernos. "Foi uma pena a troca, mas precisamos modificar. O elevador precisava ser trocado, até por uma questão de segurança", afirma o síndico do prédio, o advogado Guilherme Sturion de Paula.

A exemplo do pai, ele mantém o escritório em uma das amplas salas, no 5º andar. "É um valor muito acessível para um imóvel comercial, bem localizado. Aqui, nossa principal referência é a Catedral, que fica bem pertinho, facilitando o acesso de todos os clientes".

Quem também faz parte da história do Edifício Autolon é seu Ezídio da Silva, um dos primeiros alfaiates de Londrina. Aos 70 anos, ele trabalha todos os dias na confecção de ternos no 5º andar.

"Aqui mudou tudo. Eram oito funcionários, mas a modernidade chegou, as máquinas foram ocupando o lugar dos homens. Hoje são apenas três funcionários". Apesar do saudosismo, ele considera as mudanças boas. "Sempre melhora. Tem mais conforto e facilidade".

A trajetória do Edifício Autolon está sendo catalogado pelo síndico com a ajuda de uma arquiteta. Fotos e documentos do prédio serão colocados em painéis, na entrada do edifício. "Queremos que as pessoas conheçam a história deste lugar e saibam como o prédio era quando foi construído para ajudar a movimentar todo o setor comercial da Cidade", afirma Guilherme de Paula.

Acessibilidade - Outro prédio, o Center Irene Isabel, na Avenida Higienópolis, pertencente à família Neves, foi fundado há 22 anos pelo pioneiro Manoel Maria Neves, responsável também pela fundação dos edifícios Monalisa e Ohara, em Londrina. Até hoje é administrado por Selma Ferraz Antunes, ex-nora de seu Manoel. "Cuido de todos os detalhes, desde os simples cuidados do dia-a-dia até uma grande reforma".

Nas 60 salas que se espalham pelos andares e nas outras duas no térreo, que abrigam dois bancos, um fluxo de pessoas envolvidas com trabalhos em escritórios de advocacia, salas de dentistas e multinacionais. "Basicamente nosso público é esse. Fazemos uma seleção rígida e temos sempre uma fila de espera para ocupar novas salas", relata a administradora.

A excelente localização e a facilidade para o público são fatores fundamentais para manter a estrutura na ativa. Para isso, o prédio, fundado em 86, passa por frequentes reformas que incluem sistemas de segurança, elevadores novos e pintura anual. Recentemente a entrada que abrigava apenas uma escada comum foi toda adaptada para atender deficientes físicos, visuais e auditivos. "Temos uma visão voltada para o social e sabemos da necessidade de dar acesso a todos. O prédio é histórico, importante para a Cidade, e vamos mantê-lo sempre atualizado", afirmou a administradora.

Avenida Higienópolis - O Edifício Londrina Trade Center mantém a dinâmica de prestação de serviços há 16 anos. As 96 salas distribuídas em 20 andares abrigam escritórios e clínicas de profissionais liberais, enquanto as lojas instaladas no térreo oferecem todo tipo de serviço. Cafés, salão de beleza, papelaria, lojas de confecções.

O síndico, Roberto Schnitzius, afirma que o edifício compete com os mais modernos. "Temos um espaço amplo, bem localizado e principalmente, valorizado". No ano passado, uma sala era comercializada há R$ 120 mil. "Este ano já comercializamos uma loja a R$ 170 mil", afirma. Os problemas com a segurança foram sanados com modernas instalações de circuito interno de TV e seguranças particulares. "Procuramos sempre melhorar as instalações para atender os empresários e o público que frequentam o prédio".

No edifício Newton Câmara, também na Avenida Higienópolis, 72 salas e 22 lojas atendem um público diversificado. A recepcionista Dalva Moiteiro, que trabalha há 18 anos no prédio, afirma que apenas uma sala está desocupada. "Mas logo aluga. Não demora nada".

A tradição do prédio atrai investidores. Há 16 anos, Marli Astun Dionísio gerencia a loja de presentes e decoração, SH Marabá, instalada na entrada do edifício. Recentemente o ponto foi ampliado e outra sala próxima já foi reservada para abrigar a terceira loja. "O ponto é excelente, o fluxo de pessoas que passa pelo corredor é impressionante e todo mundo dá uma passadinha na loja". A única reclamação são as poucas opções de vagas para carga e descarga de mercadorias. "Isso poderia melhorar", sugere.

Modernidade - As peculiaridades de cada edifício fazem a diferença na hora de escolher onde abrir o negócio. No Tower Center, por exemplo, localizado no miolo de Londrina, o cliente tem 25 andares de torre, quatro andares de shopping e dois subsolos com garagens. O shopping tem 70 lojas e as torres, 100 salas. Inaugurado em 98, é o único prédio com garagens elevadas na cidade. O fluxo de pessoas, segundo o síndico, Mauro Lopes da Silva, chega a 9 mil por dia. "É um dos maiores pontos comerciais da Cidade", relata. Entre os mais modernos está o Condomínio Edifício Euro Center, inaugurado em abril de 2005. Construído na Avenida Higienópolis, o prédio com 19 andares, 95 salas, além de três subsolos, tem design moderno e um eficiente sistema de segurança que ajudam no combate a incêndio, inclusive alarme e jatos d'água. O sistema de elevadores permite uma velocidade de 340 metros por minuto. "A tecnologia é alemã e leva o visitante em poucos segundos até o último andar do edifício", explica o administrador, Otávio Sampaio. A entrada é controlada por sensores óticos com sistema digital para usuários e condôminos. Na portaria o visitante entra com controle de cartão.

O prédio tem escritórios no setor de construção, mercado de capitais, firmas de investimentos, agências bancárias e empresas particulares e oferece ao empreendedor salas amplas com sacadas, auditório com 80 lugares e equipamentos multimídias. "O diferencial atrai o cliente. Hoje em dia os empreendedores exigem conforto, praticidade e segurança. Tudo para realizar um bom negócio". 85% das instalações estão ocupadas. É ali que o comerciante Mauro Moraes instalou sua Cafeteria há três anos. Junto do filho ele toca o negócio que tem clientela garantida. "É um ponto que compensa o investimento", afirma.

Um zelador, um prédio, uma história

Seu Luciano Ferreira Durães, hoje com 72 anos, chegou logo após a inauguração do Edifício Palácio do Comércio. A função de zelador é exercida até hoje, em 33 anos de trabalho. Aposentado, ele segue trabalhando e é o responsável pelo bom funcionamento do prédio. Trabalho árduo, mas prazeroso e cheio de histórias.

Morador do 20º andar desde que começou a trabalhar no edifício, o zelador relembra quando prédio ainda estava na fundação. "Era um imenso canteiro de obras, com uma profundidade enorme. Pensei comigo: vai ser um prédio grande. Quem sabe eu venho trabalhar aqui". Nessa época ele era zelador no Edifício Bosque. "Ouvi falar que trabalhar em prédio era bom, então saí do emprego que tinha há quinze anos em uma fábrica (antiga cervejaria) e acabei sendo zelador".

Seu Luciano, que estudou apenas até a 8ª série, sente uma responsabilidade enorme com o trabalho. "Por ser um ponto de referência, muitas pessoas vêm até o prédio para saber onde ficam outros endereços. Tenho sempre um caderninho com os nomes de ruas e telefones de pontos importantes da Cidade, para não deixar ninguém sem informação". A busca por informações, ou mesmo atendimento, no prédio é muito grande. Seu Luciano já teve o capricho de contar. Em apenas um dia de trabalho, passaram pela portaria seis mil pessoas. "Ao longo dos anos você aprende tudo. É um trabalho que exige atenção e muita dedicação".

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