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Ano 6 - Numero 96 - Junho 2010

Linha e Agulha
Gestão articulada
Dois anos na presidência, dois anos na busca pela união. À frente da ACIL, o empresário Marcelo Cassa buscou a articulação entre sociedade, entidades e poder público como caminho para o desenvolvimento e solução de problemas. A ação rendeu frutos em diversos segmentos, materializou-se no Natal de Amor e na aprovação da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa. Ainda em andamento, as discussões sobre a flexibilização do horário do comércio e definição da rota que será adotada pela Ferrosul também são resultados dessa postura de agregar forças pelo bem comum. Nessa entrevista, Cassa faz um balanço desse trabalho e afirma ter conseguido colocar em prática os principais projetos almejados.
Jornal da ACIL - Quando o senhor assumiu a presidência da ACIL, propôs uma gestão batizada de "Linha e Agulha" dentro da ideia de integração. Isso de fato aconteceu?
Marcelo Cassa - Passados esses 23 meses acho que conseguimos sim. O objetivo era usar a imagem que a Associação formou em seu histórico de 73 anos e que deu a base da sua força, marcada no trabalho pelo desenvolvimento. Então, o foco da entidade nunca foi somente o interesse empresarial - na verdade, o interesse é o meio empresarial, mas através do trabalho de desenvolvimento no seu conjunto. Nessa linha tivemos, desde a criação da Associação, lutas pela estrada de ferro, ponte, hospitais, universidades, sempre participando dos grandes momentos da Cidade. Basicamente havia, à época, a necessidade da articulação entre as pessoas, as lideranças. Depois, com a evolução do trabalho e o passar dos anos, a especialização das entidades fez com que a maioria passasse a focar no seu segmento, conforme as demandas iam surgindo. Eu acho que essa questão da especialidade vai, em determinado momento, contribuindo para tornar a integração mais difícil. Nessa gestão, colocamos como uma bandeira fazer com que a Cidade se aproximasse mais, se articulasse mais e que a gente fosse um agente ativo nesse processo.
Jornal da ACIL – Interação tanto da sociedade quanto do poder público?
Cassa - Observamos, ao longo desses anos que passaram, que as entidades foram se especializando, cada uma lutando pelo seu interesse específico, o que não tem nada de errado, vale ressaltar. Porém, para que a gente tivesse um trabalho mais produtivo, era preciso aglutinar interesses, focalizar. Interesse comum não é a busca da solução dos problemas individuais, mas de problemas que podem ser comuns. Aí você precisa primeiro fazer o trabalho de reaproximação, de diálogo e de troca de outras informações que não sejam os interesses específicos para colocar na balança e fazer com que essas outras entidades e lideranças passem a ter uma mesma visão. Assim, podemos alcançar uma integração verdadeira nesse sentido. E a agulha vem no sentido de costura também e no sentido de que se precisar definir uma posição diferente daquela que é comum, desde que uma posição embasada, a agulha também serve para dar uma espetada de vez em quando. A independência da entidade passa por isso, de aglutinar, de costurar, mas também espetar quando a entidade tem certeza de determinadas posições. Nesse ponto ela precisa ter a coragem de definir e manter sua posição.
Jornal da ACIL - Nesse trabalho de aglutinar pessoas, governo e entidades o senhor enfrentou um momento de transição política no poder Executivo de Londrina. Foram três prefeitos nesses dois anos, Nedson Micheleti, José Roque Neto (interino) e Barbosa Neto. A troca no comando da prefeitura ajudou?
Cassa - Ajudou bastante. A ACIL sempre esteve pronta a dialogar e trabalhar em conjunto com outra gestão também, com o prefeito anterior (Nedson) nunca faltou por parte dela uma tentativa de aproximação, de diálogo, e as divergências de opinião aconteciam. Na troca, como é tudo novo, mudam também as posturas e a interação se torna bem mais fácil. Tivemos o início do nosso trabalho na ACIL com uma administração municipal que estava caminhando para seu final, com opiniões já consolidadas e por isso muito mais difíceis de serem discutidas. Como a nossa gestão na ACIL faz parte de uma linha de atuação implementada e continuada há alguns anos, ao contrário da nova gestão da prefeitura (Barbosa Neto), tivemos nesse segundo momento a ACIL com opiniões já amadurecidas e aprimoradas. Aliada a uma gestão nova do Executivo, a nossa experiência de outras gestões facilitou bastante o relacionamento. Houve bons frutos dessa parceria com a Prefeitura pela nossa capacidade de ter evoluído nessas gestões da ACIL e a humildade do poder público de estar ouvindo. Nem sempre de maneira tão rápida e fácil, mas a gente soube entender as dificuldades de time, de velocidade de poder público, e também a gente via muita boa vontade por parte da Prefeitura.
Jornal da ACIL - Dentro dos frutos desse trabalho de Linha e Agulha podemos incluir o Natal do Amor, ele é resultado dessa união?
Cassa - Com certeza ele faz parte, mas ele é também resultado de um trabalho que começou no final de 2008 com a campanha do Natal daquele ano, que seria o início do Natal do Amor, que conseguimos tornar realidade no ano passado. O Natal do Amor foi consequência dessa bandeira levantada da articulação em que todas as ações tiveram essa aglutinação e participação. Ele é um evento grandioso que teve muito mais entidades envolvidas, com visibilidade e investimentos maiores, um evento voltado para o público de Londrina e região. O Natal do Amor foi uma das ações que tiveram esse espírito da costura.
Jornal da ACIL - Tivemos a aprovação da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa em âmbito municipal. Era importante ter essa lei municipal?
Cassa - Essa Lei nasceu exatamente desse grupo de trabalho que a ACIL formou com outras entidades, especificamente Sebrae, Adetec, Codel e FIEP. Fizemos um estudo sobre um caderno elaborado pelo Fórum Desenvolve Londrina na questão de desenvolvimento empresarial. Pegamos esse estudo do Fórum, que é um grupo pensante que propõe, e sentimos necessidade de aprofundar nessa questão do desenvolvimento empresarial. Levantamos 10 projetos e o primeiro deles era a Lei Geral. Como ela era uma lei de extrema importância porque dá prioridades e benefícios, agiliza e incentiva as pequenas empresas, todo município que aderia à Lei Geral tinha grandes resultados para a micro e pequena empresa. Não víamos alternativa que não a implantação dela, que seria um grande guarda-chuva para você realmente incentivar e dar condições técnicas, recursos e desburocratização para as empresas. É uma grande chance de integrar cada vez mais as entidades empresariais com o poder público. Para se construir uma política pública para qualquer atividade ou setor você precisa ter a população, o governo e as entidades. A existência dessa lei nos obriga a isso porque dentro dela há um comitê gestor do qual a gente faz parte. Quando você aprova uma lei você não está terminando o processo, mas começando. A partir da Lei Geral você tem que monitorar, através de indicadores, se tudo o que se coloca como objetivo está sendo alcançado. É uma contribuição efetiva da Entidade para a Cidade. É um foco direto em sua atuação empresarial que não fica restrito ao associado.
Jornal da ACIL - Que outras ações o senhor destacaria?
Cassa - Fortalecemos um evento, que na verdade já acontecia na gestão passada, que foi o Integra. Ele une a academia, os centros de transferência de tecnologia e as empresas no sentido de agregar valor a seus produtos pelo desenvolvimento da tecnologia ou pela transferência de tecnologia. O objetivo é reter a mão-de-obra especializada produzida aqui nas escolas e faculdades fazendo com que o salário suba por produtividade e agregação de valor. Criamos também um grupo de desenvolvimento empresarial através de estudos feitos pelo Fórum Desenvolve Londrina, temos um subgrupo de um grupo maior especializado no assunto de desenvolvimento, no qual foram elencados 10 itens estratégicos que são as joias da coroa, que são ações que o grupo considera fundamentais para o desenvolvimento do município. Essas joias são trabalhadas sistematicamente, em reuniões realizadas todas as semanas. É outro exemplo. Tem também as campanhas de liquidação, a Londrina Liquida, iniciadas na gestão passada, que foram realizadas para agregar cada vez mais empresas e regiões, aumentando o número de participantes, além das campanhas de horários especiais do comércio e da tradicional campanha de Natal. Outra grande atuação foi a participação ativa da ACIL no Movimento Londrina Competitiva, que foi determinante a viabilização para a contratação da consultoria de gestão pública que já está atuando na Prefeitura.
Jornal da ACIL - A ACIL também buscou essa união e articulação para discutir assuntos importantes para a Cidade, como atualmente a questão da linha férrea para transporte de carga, o ramal da futura Ferrosul, por sua vez um complemento da ferrovia Norte-Sul...
Cassa - Sim e aí não é só por Londrina. Nossa região, mais precisamente as proximidades de Arapongas e Apucarana, foi contemplada no projeto original da Ferrosul, apresentado pelo Ministério dos Transportes como parte da Ferrovia Norte-Sul. Acontece que o então presidente da Ferroeste [Samuel Gomes] anunciou que o traçado daqui havia sido levado para Campo Mourão, passando por Maringá. Isso sem qualquer discussão técnica ou debate com os municípios envolvidos. Juntando esforços do Paraná e do Vale do Ivaí, mostramos que possuímos melhores condições em termos de projeto de industrialização e potencial de crescimento. E também as regiões menos favorecidas, como o Vale do Ivaí, poderiam ter um resultado muito positivo em relação ao índice de pobreza que apresentam atualmente. Você tem uma demanda real para a industrialização da região e também o atendimento a uma questão social de baixo IDH no Vale do Ivaí. O fundamento é o mesmo: articulando com as prefeituras e associações da região e trabalhando em um projeto de defesa do traçado original. Nessa questão regional também existe nosso apoio dentro da Agência de Desenvolvimento Terra Roxa, que trabalha na atração de investimentos para o Norte e Noroeste do Paraná, no Eixo de Londrina-Maringá. Então, nós também trabalhamos junto com Maringá, com todas essas prefeituras que estão nesse eixo, e isso é para mostrar uma contraposição sobre a questão do trem. Não estamos contra qualquer região, existe um projeto original e dentro do campo da argumentação técnica e da articulação política dessas cidades fazemos a defesa de manter o traçado original. Podemos divergir, mas é sempre uma discussão sadia.
Jornal da ACIL - Outra discussão importante, que ainda não terminou, é a flexibilização do horário do comércio. O senhor esteve presente nas discussões de elaboração das Leis Complementares ao Plano Diretor, que ainda serão votadas na Câmara. Uma delas prevê maior flexibilidade para a abertura das lojas de comércio de rua. Isso é um avanço?
Cassa - Desde que eu faço parte da diretoria da ACIL, isso tem 12 anos, tem-se discutido isso e a própria ACIL discute o horário do comércio há mais tempo. Especificamente na gestão passada e nessa, nós não fizemos do horário do comércio uma briga ou como principal bandeira como já foi em outras épocas. Sempre tratamos isso de uma forma natural, de uma evolução que não teria como o Sindicato Patronal e o Sindicato dos Empregados interferirem nessa questão porque moralmente e legalmente não são eles que definem. Já existem leis nacionais que regulamentam o trabalho e a questão do horário é regulamentada no município pelo Executivo. Em Londrina existe o hábito dessa discussão passar pelos sindicatos e nós temos orientado e conscientizado o empresário sobre isso. Quando a convenção está vencida, não existe obrigatoriedade de as empresas obedecê-la. Com relação ao horário de sábado, a flexibilização volta para a questão da CLT, que é muito clara e diz que desde que a empresa obedeça a jornada ela tem toda a possibilidade. Ou para o Código de Posturas, em relação ao qual o município tem aceitado que mais um sábado por mês tenha horários estendidos, sempre que os dois sindicatos o colocassem na Convenção Coletiva de Trabalho. Mas esse sábado não está previsto no Código. Firmada convenção coletiva, o Poder Público fazia vista grossa, o empresário desconhecia que estava descumprindo o Código de Posturas e os sindicatos convencionavam o errado. Houve então todo o trabalho feito pelo Plano Diretor, especificamente no Código de Posturas, elaborado depois de várias câmaras técnicas e audiências publicas. O resultado dessa minuta, feita pela população nos mais diversos segmentos, aprova a flexibilidade dos sábados e estende o horário de segunda a sexta, o que demonstra que a bandeira que a Associação pregava, ou prega, é muito clara, que é uma tendência natural e que essa discussão está fora do alcance das questões sindicais. O recado é esse que a Associação passou, o empresário deve ter consciência dos direitos e deveres e quando você pode fazer, você pode fazer. Isso está sendo provado pela minuta que vai para a Câmara e a gente espera a Casa do Povo atenda aos anseios da população.
Jornal da ACIL - Podemos dizer que como presidente o senhor conseguiu fazer tudo o que tinha em mente ou ficaram projetos para trás?
Cassa - Os projetos principais foram realizados. Quando começamos o trabalho na Entidade, sempre tivemos como princípio colocar poucas metas e realizar todas e, caso fosse possível, a conquista de novas. As metas eram, primeiro, um grande Natal, mas não uma campanha só comercial mas um Natal que tivesse uma conotação muito maior que a questão econômica. Para isso, era consenso de que deveria ser um Natal da Cidade, não de uma entidade ou um grupo pequeno de organizações. É com o espírito de ser um dos participantes do Natal do Amor que a ACIL vem trabalhando nesse projeto, que já está dando muito certo. O Natal foi de união, de reutilização de materiais descartáveis, da questão da sustentabilidade e também de valorização da Cidade como um destino turístico, da visibilidade regional e nacional da árvore e do trabalho integrado. Essa era uma bandeira, principalmente no que isso representaria para a Cidade no resgate da autoestima do londrinense. Temos que provar que nós, unidos, podemos fazer coisas grandiosas, bonitas, a custos muito baixos. O recado que a ACIL tem dado através dessa bandeira é que nós podemos, basta termos o sonho e valores elevados que vamos conseguir. Outra bandeira foi essa articulação da ACIL como um agente que mobiliza e articula a sociedade, por isso participamos de vários movimentos sociais. Falamos de segurança, de saúde, de educação entre outras questões sociais como o movimento Pé na Faixa e o Fórum Desenvolve Londrina. Uma outra bandeira mais especifica está relacionada ao comércio exterior. Temos uma parceria com a agência Terra Roxa que tem como foco a captação de investimentos, principalmente internacionais. Missões internacionais costuradas com aplicação local, criação de núcleos de comércio exterior, o estudo do processo de internacionalização do aeroporto e as ferramentas para isso como o ILS e ampliação da pista. Tudo isso foi feito, somos um guardião do comércio exterior porque ele passa a ser um processo de aumento da visão do empresário local. A partir daí, mesmo que ele não atue no mercado externo, tendo essa visão ele melhora seu desempenho. Acho que foram três bandeiras que têm uma simbologia. A união de esforços no Natal do Amor, a integração e, já que a gente pode, vamos enxergar mais longe com o comércio exterior.
Jornal da ACIL - Por que fazer parte de uma entidade como a ACIL?
Cassa - Ser diretor, associado ou presidente de uma entidade é importante porque a solução hoje para questões de alta competitividade, da individualização das pessoas, do grande crescimento econômico e formação de grandes grupos passa pela necessidade da ampliação do seu horizonte cultural e de informações. Através do trabalho como associado, presidente ou diretor, você tem a possibilidade de exercer e praticar o associativismo em coisas simples como cooperativas de compra, núcleos setoriais e planejamentos setoriais. E em ações mais amplas, sempre contribuindo e aprendendo. Então você tem ampliação da sua rede de contatos, vai aprendendo através de situações reais e exemplos de outros empresários. A multiplicidade de áreas de atuação da ACIL dá às pessoas que participam uma amplitude de informações e conteúdo que se integra ao seu rol de conhecimentos. Num mundo como esse que a gente vive, quanto maior for sua capacidade de visão e integração, mais próximo você estará de se transformar num empresário cidadão, que conhece a realidade de seu município e não deixa de olhar para o mundo. Os valores que prevalecem são os valores básicos e fundamentais, que incluem conhecer as pessoas que trabalham na sua cidade, ter uma atuação ética e doação para causas importantes. Costumamos dizer que a remuneração de um diretor ou presidente da ACIL é realmente o aprendizado. Participando de uma associação você aprende muito porque não discute interesses específicos. Você aprende muito mais na discussão de interesses comuns. Essa é a riqueza do trabalho associativo.


