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Ano 6 - Numero 95 - Maio 2010

Jornal da ACIL
Novo fôlego

Narciso Pissinatti - “Este ano tivemos uma produção satisfatória, mas essa rentabilidade paga apenas os custos de investimento na própria implantação da lavoura colhida”

  • Narciso Pissinatti - “Este ano tivemos uma produção satisfatória, mas essa rentabilidade paga apenas os custos de investimento na própria implantação da lavoura colhida”
  • Osvaldo Coutinho Filho e Luiz Carlos Pelincer Júnior, da O2 Invest
  • Márcio Fulber – Para ele, a safra americana, a maior do mundo, é que vai determinar os rumos da soja e dos mercados correlatos
  • Moacir Sgarioni - “Nosso principal destino ainda é o mercado interno, porque os importadores, especialmente europeus, russos e americanos, estão usando várias estratégias para barrar nossa carne, pois sabem que somos fortes concorrentes”
Agronegócio

Novo fôlego

Sob sinais de melhora na economia, especialistas analisam mercado com olhares e projeções diferentes

Katia Baggio
Especial para a ACIL

O cenário econômico mundial dá claros sinais de que a crise financeira pode estar se assentando e o Brasil mantém um desempenho favorável. As perspectivas são, portanto, otimistas. Mas o setor agrícola, que também foi afetado pela crise internacional, segue um roteiro muito próprio, sobre o qual especialistas ouvidos pelo Jornal da ACIL divergem quanto ao futuro. Para o campo, de onde ainda vem muito da riqueza que movimenta Londrina, muitos fatores devem ser pesados.

A soja representa a principal atividade econômica do Estado, responde por 35,5% do Produto Interno Bruto (PIB) paranaense (US$ 32,8 bilhões). O Paraná é o 4o exportador do agronegócio do país, concentrando 12,5% do volume das exportações.

Não existe um estudo que aponte quanto a soja injeta de recursos no comércio da Cidade e da região, mas com a boa safra de soja no verão que terminou, a expectativa seria de aquecimento nos negócios locais. No entanto, profissionais do setor têm opiniões diferentes, conforme o ramo em que atuam.

O operador de commodities agrícolas da O2 Investe, Luiz Carlos Pelincer Júnior, analisa o assunto pensando cerca de um ano à frente. Para ele, a tendência é de que os preços da soja e do milho, principais culturas de verão no Estado, melhorem e causem um impacto positivo no comércio local e regional. “A expansão da receita se dará mais por volume exportado que por preço. A volta da demanda vai impedir que os preços recuem em 2010 e, em alguns casos, as cotações tendem a subir, mas a elevação dos preços não será expressiva. O que salva as exportações brasileiras é o agronegócio e essa é uma tendência para os próximos anos”.

Pelincer acrescenta que os estoques mundiais estão baixos em razão da crise mundial, que fez com que todos reduzissem as compras, mas os países que são grandes compradores precisam voltar a formar estoques e esse é o momento que pode ser benéfico para o setor.

O presidente do Sindicato Rural de Londrina (SRL), Narciso Pissinatti, se preocupa com os efeitos das políticas econômica e agrícola do Governo Federal para a classe rural em médio e longo prazos. Ele concorda com a volta às compras pelos consumidores internacionais, especialmente Europa e Ásia, mas afirma que aqui faltam políticas de apoio, como subsídios e seguros eficientes. “A agropecuária, hoje, é considerada atividade de alto risco, tanto que poucas empresas de seguro atuam no setor”.

Para Pissinatti, o efeito imediato de uma boa safra não é suficiente para capitalizar o produtor por mais tempo e o comércio sofre esse impacto nos anos seguintes. “Este ano tivemos uma produção satisfatória, mas essa rentabilidade paga apenas os custos de investimento na própria implantação da lavoura colhida, como plantio, manejo de pragas e doenças e colheita. Não sobra para que a gente faça uma manutenção no maquinário, nem que compre algum bem móvel ou imóvel ou invista em outros ativos e esse é o problema”, avalia. Outro aspecto apontado pelo presidente do SRL se refere às notícias de que os países europeus estão em dificuldades financeiras, o que pode significar novo recuo na importação e no consumo de produtos produzidos no Brasil e em outros países fornecedores. “É certo que a produção deles não atende a demanda interna, mas já vimos como houve redução de importações no auge da crise financeira de 2008, agora, com os países admitindo que estão praticamente quebrados e pedindo ajuda aos organismos financeiros internacionais, acho difícil ficar otimista por aqui”.

Pelincer Júnior lembra que fazer vendas no mercado futuro pode ser uma garantia de cobertura dos custos com a implantação da lavoura e ainda de ter algum lucro. Segundo ele, apenas 8% dos produtores rurais brasileiros investem nessa modalidade de negócio, “quando nos Estados Unidos é uma prática rotineira, por isso eles estão mais capitalizados lá, enquanto aqui os produtores ficam à mercê da volatilidade do mercado, que sofre uma série de influências”, analisa.

Em um período de soja com preços perto de R$ 30 a saca, menores que a safra passada, quando a oleaginosa se mantinha em R$ 40, o mercado sente os reflexos. Márcio Fulber, representante comercial da Stara, empresa de equipamentos do pré-plantio à colheita, avalia com cuidado o restante do ano. Para ele, a safra americana, a maior do mundo, é que vai determinar os rumos dos mercados correlatos.

Além disso, há previsão de safras recordes também na Argentina, aqui no Brasil e até no Paraguai, normalmente menos expressivo no setor, mas o clima, embalado pelo fenômeno climático El Niño, favoreceu lavouras em praticamente todos os lugares. “Com isso, o preço fatalmente cai, mas nós temos aqui um problema a mais, que é o câmbio, por isso, esperamos que o Governo Federal interceda na medida certa para que não aconteça uma catástrofe no setor”.

Por outro lado, Fulber diz que o produtor esqueceu-se de fazer uma conta básica, ligada ao índice de juros desse ano e do ano passado. “Este ano, mesmo com a soja a R$ 30 a saca, os juros das linhas de crédito desse segmento (agrícola) são de 4,5% ao ano (a.a). No ano passado, com a soja pagando mais, R$ 40 a saca em média, os juros estavam em 9,5% a.a., ou seja, ele ganhou mais, mas também pagou mais nos financiamentos que fez”. No entanto, concorda que muitos produtores rurais não estão capitalizados satisfatoriamente para que possam planejar suas obrigações financeiras em longo prazo. Eles estão, na maioria das vezes, esperando receber a safra atual para pagar financiamentos de custeio e investimentos feitos para este mesmo período, além daqueles que ainda pagam dívidas de safras anteriores, frustradas pela seca ou por outros problemas climáticos. A pecuária é outra fonte de riqueza importante para o país. Para o diretor de pecuária da Sociedade Rural do Paraná (SRP), Moacir Sgarioni, “é fundamental mostrar para o comprador deste gado, mas também para o consumidor final, que nós temos excelentes exemplares, que fornecem carne de primeira qualidade e merecem uma remuneração melhor”.

Segundo Sgarioni, o Brasil tem um rebanho bovino de 200 milhões de cabeças, o que representa 20% do rebanho mundial, e responde por 17% de todo o abate que acontece no planeta.

Quanto às exportações, somaram 2 milhões e 100 mil toneladas em 2009, 30% do mercado externo mundial. A exportação é importante para agregar valor à carne brasileira. Hoje, o preço médio da arroba é de R$ 76, 12% inferior aos preços praticados em 2008, antes da explosão da crise financeira internacional, quando a arroba foi comercializada na casa dos R$ 90.

“Nosso principal destino ainda é o mercado interno, porque os importadores, especialmente europeus, russos e americanos, estão usando várias estratégias para barrar nossa carne, pois sabem que se abrirem suas portas nosso produto vai agradar seus consumidores e seremos fortes concorrentes. Mas mesmo assim, estamos trabalhando para ampliar mercados”.

Sgarioni informa que o consumo per capita brasileiro de carne bovina aumentou 24% nos últimos 10 anos, de 35 kg/habitante/ano para 43 kg/habitante/ ano e continua crescendo, mas falta uma valorização maior do produto para que o pecuarista também seja melhor remunerado.

O presidente da Associação Nacional dos Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC), José Antonio Fontes, afirma que “não existe carne de segunda se o gado é de primeira, se foi manejado, alimentado e tratado da maneira adequada, a diferença está em como apresentar esse produto ao consumidor final”.

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