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Ano 6 - Numero 94 - Abril 2010

Trânsito
Só para ônibus
Prefeitura cria faixas exclusivas para o transporte coletivo na Rua Professor João Cândido; medida divide opiniões
A implantação de faixas exclusivas para o transporte coletivo em Londrina divide opiniões. Por uns é vista como um mal necessário, reflexo do acelerado crescimento urbano e do caos em que pode se transformar o tráfego da Cidade. Outra parcela da população, especialmente comerciantes, revela preocupação com o que considera uma decisão unilateral da prefeitura com um provável efeito negativo sobre os negócios.
A principal razão deste ponto de conflito é a extinção das vagas públicas para estacionamento nas ruas que terão as faixas exclusivas para os coletivos. Comerciantes temem que os clientes troquem seus estabelecimentos pelos de concorrentes instalados em locais com vagas disponíveis.
O projeto do município é executado pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) e prevê a implantação do novo sistema em vários pontos de tráfego de ônibus. O objetivo é agilizar o trânsito e desafogar as principais artérias viárias da Cidade.
O diretor de Trânsito e Transporte da CMTU, Wilson de Jesus, informa que a mudança deve acontecer nas principais ruas do quadrilátero central da Cidade, por etapas. Ele argumenta que o projeto foi precedido de uma avaliação do volume de tráfego nas vias alvo. “O Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina) fez um excelente trabalho, registrando a quantidade e o tipo de veículo que transita nestas ruas, tanto por hora como em cada quadra. Foi constatado o excesso de veículos e um previsível caos se nenhuma providência fosse tomada”.
Por enquanto a faixa exclusiva está ativa na Rua Professor João Cândido e, apesar do trânsito visivelmente mais organizado, a inovação não é aceita com unanimidade. A Avenida Duque de Caxias foi a segunda via programada para ter a faixa privilegiada para os coletivos, mas um movimento dos comerciantes daquela região adiou o procedimento. Na João Cândido a mudança acabou revelando a falta de locais adequados para carga e descarga de mercadorias e equipamentos, um problema que parece tão grande quanto uma indesejável perda de clientela.
A maioria dos comerciantes desta via, na quadra situada entre as ruas Sergipe e Benjamin Constant, se não aprova a mudança diz que não ficou pior. Para Sônia Herrera, gerente de uma loja de confecções, a falta de local apropriado para carga e descarga fazia com que os caminhões utilizassem as poucas vagas de estacionamento que existiam para fazer o serviço. “Com isso, aqueles veículos enormes se revezavam o dia todo estacionando em frente à loja e escondiam a fachada. Pelo menos agora os consumidores enxergam o nome e os produtos, então melhorou, mas é urgente definir um local para essa atividade”, atesta.
Na mesma quadra, o proprietário de uma loja de doces e artigos para festas, Lázaro Biazi, diz que com a faixa exclusiva “o trânsito está fluindo melhor”, mas ele também reclama da falta de espaço próprio para carga e descarga. “Os motoristas têm que estacionar longe daqui e têm que fazer várias viagens com carrinhos para trazer tudo, por isso demora e não é prático”, observa.
Para a proprietária de uma loja de artigos variados, Lucineide Izabel da Silva, a falta de espaço para carga e descarga atrapalha mais do que a perda de vagas de estacionamento na rua. “Aqui nunca teve muita vaga mesmo e as poucas que existiam eram ocupadas desde muito cedo pelos carros dos ambulantes que trabalhavam na calçada do Terminal (de Transporte Coletivo) e só saíam no final do dia e nunca vimos fiscalização que cuidasse desse problema. Além disso, os caminhões de mercadorias estacionavam nas vagas que sobravam e escondiam a loja, então, pelo menos agora nosso público alvo, que usa ônibus ou passa de carro, vê a loja”.
Quanto à eficiência da faixa para o trânsito, Lucineide e o marido afirmam que antes demoravam quase 30 minutos para chegar à loja, “20 só na João Cândido e agora fazemos o mesmo trecho em menos de 10 minutos”, comemoram.
Por outro lado, entre o Calçadão e a Rua Sergipe, a insatisfação com o novo sistema viário é grande. José Antonio Machado, que tem uma lanchonete nesse ponto, diz que em 10 dias sem estacionamento na rua já sentiu uma queda de 10% no movimento, em relação ao mesmo período do ano passado. “Até o cliente que faz o pedido por telefone e vem buscar na porta não pode parar o que também prejudica as vendas”. Ele acrescenta que a falta de local para carga e descarga chegou a atrasar o fornecimento de matéria prima em três dias e pede uma solução. “Não podemos fazer esse serviço após o expediente nem muito cedo porque temos medo de assaltos”. Machado conta, ainda, que conversou com funcionários e outros usuários de transporte coletivo e a maioria diz que a mudança reduziu o tempo dentro dos ônibus, mas eles continuam lotados nos horários de pico. “Se a proposta é melhorar o serviço então é preciso colocar mais ônibus”, sugere.
A gerente de uma loja de cosméticos, Milena Oliveira, diz que as vendas caíram 40%. “Minha clientela geralmente entra na loja sem pressa, compara preços, busca conhecer as novidades em xampus, cosméticos e outros artigos, é uma modalidade de negócio na qual a característica é a pesquisa e sem a comodidade da vaga por perto, esse público certamente está buscando na concorrência esta comodidade”, acredita.
Na Professor João Cândido a nova sinalização de apoio informa que a faixa exclusiva deve ser respeitada de segunda a sexta, das 7 às 19 horas e aos sábados das 7 às 14 horas. A Lei Federal 9.503/97, o Código de Trânsito Brasileiro, é outra inscrição que aparece nas placas. Está previsto no Código a responsabilidade do município pela organização e fiscalização do trânsito, entre outras atribuições. Agentes de trânsito da CMTU já estão fiscalizando e autorizados a multar veículos que invadirem a faixa exclusiva para os coletivos.
Os comerciantes da Avenida Duque de Caxias argumentam que a via tem características diferentes da João Cândido e, por essa razão, merece uma interpretação também especial. Proprietário de uma loja de produtos elétricos, Michel Menegazzo Gouvêa comenta que há muito tempo a Duque tem um comércio de materiais mais pesados e como a via é antiga a maioria dos estabelecimentos não tem o recuo de 5 metros, que favorece o estacionamento. “Por isso, nosso receio é que o corredor exclusivo para ônibus, que vai acabar com o espaço para estacionamento na via pública, leve a uma forte queda nos negócios e consequentes demissões e falências”.
Proprietário de uma revenda de motos e acessórios para motociclistas, Vladimir Renato Aranda Lopes concorda com o vizinho de comércio. “Se perco a faixa para estacionamento de motos que tenho em frente à loja, perco também os clientes porque os motoqueiros não vão parar a um ou dois quarteirões para vir a pé comprar uma peça, um acessório. Além disso, as ruas laterais também têm poucas vagas. Estou aqui há 21 anos e não durmo desde que a prefeitura anunciou a faixa exclusiva e o fim das vagas para estacionar na Duque. Também pergunto por que não fomos consultados sobre a mudança. Ficamos com o sentimento de que comerciante só tem valor porque paga imposto, mas peço que eles revejam o caso da Duque”.
As críticas dos empresários levaram a ACIL a promover uma reunião, na sede da entidade, com a presença de comerciantes, proprietários de imóveis na Duque e na João Cândido e dos técnicos da CMTU e IPPUL, além do vice-prefeito José Ribeiro. Como resultado foi formada uma comissão de representantes. O grupo de lojistas elaborou propostas alternativas que, acreditam, podem substituir o novo sistema viário na Avenida Duque de Caxias. Entre elas, uma revisão nas vagas da Zona Azul com mais fiscalização, modernização dos semáforos para uma boa sincronia, mais fiscalização também pelos agentes de trânsito já que muitos motoristas desrespeitam as leis e provocam congestionamentos em alguns pontos, deslocamento dos locais de parada dos coletivos, preferencialmente para as esquinas que favorecem a parada e saída do veículo sem tumultuar o trânsito.
Segundo Gouvêa, 3.325 comerciantes da Avenida Duque de Caxias entregaram um abaixo-assinado ao vice-prefeito, José Ribeiro, e ao presidente do Ippul, Carlos Hirata, pedindo uma revisão no projeto.
Jesus concorda que na Avenida Duque de Caxias o comércio é diferenciado e ficou de estudar o documento. “Vamos analisar com cuidado cada sugestão, mas é preciso dizer que estamos focados no benefício à maioria. O número de usuários de transporte coletivo é muito grande, são cerca de 960 viagens por dia nas principais vias do centro e nossa função é melhorar o serviço público, no caso, o transporte coletivo”.
O presidente da ACIL, Marcelo Cassa, afirma que a instituição é a favor do desenvolvimento da Cidade e lembra que é preciso avaliar um possível prejuízo dos lojistas. Ele ressalta que nesse momento “a ACIL trabalha para aproximar o poder público dos empresários, cumprindo um de seus objetivos que é promover o associativismo e o debate. Os empresários devem considerar que as demandas da Cidade também são as deles e, nesse sentido, é preciso ver cada situação como um todo, para que se chegue a um consenso em benefício da maioria”.
Jesus informa que não há previsão de compensação das vagas públicas de estacionamento extintas. O diretor da CMTU acrescenta que em alguns pontos da João Cândido as vagas foram transferidas para a Rua Alagoas, inclusive com a criação de um espaço para carga/descarga. Segundo ele, pelo menos nove vagas de carga/descarga foram criadas na João Cândido e na Duque devem ser ampliadas de nove para 16. Os locais estão em fase de pintura e sinalização e devem estar ativados até a segunda quinzena de maio.
Wilson de Jesus destaca que Londrina está “em fase de mudança de paradigmas, pois uma Cidade que tem 510 mil habitantes e 260 mil veículos automotores muito em breve terá problemas graves de fluxo de trânsito e, inclusive, ambientais, pois a proporção é de menos de duas pessoas por veículo, um índice muito elevado. Nós estamos pensando a Cidade para daqui muitos anos, então nossas ações são integradas e visam um trânsito menos poluente, e aí entram as ciclovias implantadas há pouco tempo, assim como a exigência de frota moderna de coletivos”. Ainda segundo Jesus, as faixas exclusivas favorecem um trânsito mais ágil e, por essa razão, menos emissor de gases tóxicos, com a diminuição de aceleradas e freadas, por exemplo.








