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Ano 6 - Numero 94 - Abril 2010

Jornal da ACIL
Calçadão muda; Cidade debate

Allan Gonze Ramos: “Por que não mantiveram as cores antigas? Essas tiraram a originalidade, a identidade do espaço e ainda vamos conviver com os postes e os fios no meio do calçadão, muito feio”

  • Allan Gonze Ramos: “Por que não mantiveram as cores antigas? Essas tiraram a originalidade, a identidade do espaço e ainda vamos conviver com os postes e os fios no meio do calçadão, muito feio”
  • Sironey Ueda: “Não ficou bom e minha clientela também comenta que ficou feio”
  • Nadiane Fernandes: “só fica melhor para caminhar se a gente for para as calçadas laterais, que têm o piso liso”
  • Paulo Sérgio da Silva: “Se tivessem seguido o projeto antigo, nas cores branco e preto, seria melhor, mas minha preocupação é com a manutenção, espero que eles não deixem as pedras soltarem, como no outro”
  • A garçonete Simone Pereira diz que não gostou do novo calçamento porque já enroscou o salto no piso... ... já o marido dela, Ricardo Caetano, diz que caminhar com criança no colo ficou mais seguro do que no petit pavê
  • Marcelo Teodoro: “O paver não exige fixação com materiais adesivos, o que garante a infiltração de água, mas é importante destacar que o projeto de drenagem eliminou as grelhas, que eram perigosas para a segurança das pessoas”
  • Andre Sell: “A proposta é interessante para outro local, mas não poderia ser retirada a memória visual, um patrimônio cultural de Londrina”
  • Wilson Geraldo Cenvina: “O novo Calçadão ficou ótimo, mais fácil de caminhar e, pelo que sei, é ecologicamente correto, pois absorve bem a água. Quanto às cores, não sei se são as ideais, mas apoio pela praticidade”
Opiniões Divididas

Calçadão muda; Cidade debate

Troca do tradicional petit pavé pelo paver muda a cara do Calçadão de Londrina e abre caminho para discussão. Afinal, é importante ou não manter o tradicional desenho geométrico em preto e branco? O debate está aberto

Katia Baggio
Especial para a ACIL, O principal ponto

O principal ponto de referência do Centro de Londrina está no olho do furacão de uma polêmica: o Calçadão perdeu ou não perdeu sua identidade ao serem eliminadas as figuras geométricas em branco e preto depois da troca do piso petit pavé pelo paver?

Obra da primeira gestão de Antonio Belinati, na década de 1970, o Calçadão gerou controvérsia desde sua implantação. Comerciantes temiam perder clientela com o fechamento daquele trecho da Avenida Paraná, entre outros problemas futuros. O futuro chegou, os problemas não se concretizaram e a população adotou o novo espaço como elemento inseparável da Cidade.

Nos anos seguintes, o maior problema do Calçadão foi a falta de manutenção, com os pequenos blocos de pedra se soltando constantemente e provocando tropeços, quedas e desconforto para quem caminha no local, não só para mulheres com saltos mais finos, como para mães com carrinhos de bebês, ciclistas, cadeirantes e outros usuários. As grades para escoamento da água também atrapalhavam bastante e causaram vários acidentes.

No ano passado, o prefeito Barbosa Neto decidiu reformar o tão criticado e, ao mesmo tempo, tão necessário Calçadão. E propôs ao Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul) um novo piso, usado em nações do chamado primeiro mundo, como o Japão, que conheceu em uma de suas visitas internacionais. O objetivo do paver era acabar com o desconforto dos pequenos blocos de pedra, além de ser ecologicamente correto e de manutenção mais fácil.

No entanto, com a troca do material foi descartada a estética original do Calçadão. Foi o fim da geometria em branco e preto e o início de um debate polarizado em torno da identidade visual de Londrina, da memória cultural da Cidade e de seus moradores e também da beleza, ou como classificam muitos, da feiúra do novo piso.

Muitas pessoas passam diariamente pelo Calçadão, algumas mais de uma vez por dia, e as opiniões estão divididas. Para o representante comercial Wilson Geraldo Cenvina “o novo Calçadão ficou ótimo, mais fácil de caminhar e, pelo que sei, é ecologicamente correto, pois absorve bem a água. O piso antigo era desconfortável e aquelas grades que existiam eram perigosas, quanto às cores não sei se são as ideais, mas apoio pela praticidade”. A empresária Gracieli Bill lembra que “era quase impossível caminhar de salto alto no piso antigo porque o salto enroscava nos vãos. Este piso novo é bem mais prático, aprovei”.

Mas a garçonete Simone Pereira pensa exatamente o oposto, “não gostei do piso novo, já enrosquei o salto aqui”. O marido dela, o metalúrgico Ricardo Caetano, afirma que “para quem carrega um bebê no colo o novo é mais seguro, no outro a gente estava sempre tropeçando nas pedras soltas”.

A empresária Nadiane Fernandes sempre usa salto alto e diz que para ela nada mudou, “só fica melhor para caminhar se a gente for para as calçadas laterais, que têm o piso liso”. O atendente de telemarketing André Kimura avalia que a mudança é indiferente. “Mas espero que a manutenção seja melhor do que no antigo, que tinha muitas pedras soltas”, salienta.

Comerciantes têm uma visão mais crítica sobre o novo calçamento. Sinorey Ueda, que tem uma farmácia no Calçadão há 12 anos, diz não ter gostado da combinação de cores e afirma que clientes teriam feito a mesma crítica. Ele engrossa o coro dos que apostam numa manutenção mais frequente do novo espaço.

O proprietário de restaurante, Allan Gonze Ramos, destaca que “o problema vem desde o período em que a obra começou, perto do Natal, o que atrapalhou uma época importante para o comércio. Além disso, a previsão era de que tudo ficasse pronto em 90 dias, cinco meses atrás”. O comerciante também critica as cores do novo material. “Por que não mantiveram as cores antigas? Essas tiraram a originalidade, a identidade do espaço e ainda vamos conviver com os postes e os fios no meio do calçadão, muito feio”.

Proprietário de outro restaurante, Paulo Sergio da Silva reforça a crítica à demora da obra, “nosso movimento está normalizando agora”. Ele acredita que o novo piso é mais prático, mas não gostou das cores adotadas. “Se tivessem seguido o projeto antigo, nas cores branco e preto, seria melhor, mas minha preocupação é com a manutenção, espero que eles não deixem as pedras soltarem, como no outro”. E o empresário ainda se refere às calçadas laterais como “feias, em piso bruto e difícil de limpar”.

Adelaide Peruel Silva, que tem uma padaria no Calçadão reformado, diz que “cinco cores é muita coisa, poderia ser apenas o vermelho e o amarelo”. Mas ela se preocupa mesmo é com a permeabilidade do piso paver. “Não vejo bocas de lobo e tenho receio que as chuvas fortes que estão caindo acabem inundando a padaria”. Críticas também aos novos bancos, “que não têm encosto e estão em desnível” e aos postes no meio do Calçadão. “Eles deveriam deixar tudo como está, consertar o que está estragado e não mexer mais, porque pode ficar pior”.

O presidente do Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina (CEAL), André Sell, é a favor da reforma no Calçadão, “que é o coração da Cidade e cartão de visitas de Londrina, junto com o Lago Igapó”. Mas, para ele, faltou “debater o projeto com a população, com as instituições ligadas ao assunto e com os arquitetos, engenheiros e urbanistas locais. O CEAL se colocou à disposição de Barbosa Neto quando ele assumiu a prefeitura”.

Sell afirma que o problema do Calçadão não é o antigo petit pavé, especialmente porque ele foi substituído pelo paver, que “também é bom e permeável”. Na opinião do arquiteto, a extinção do antigo desenho geométrico acabou com a “marca” da Cidade. “A proposta é interessante para outro local, mas não poderia ser retirada a memória visual, um patrimônio cultural de Londrina”.

Em outubro do ano passado, antes da reforma começar, o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Norte do Paraná (Sinduscon) enviou um ofício ao prefeito solicitando a suspensão do edital que licitaria as obras no Calçadão. O documento teve o apoio formal da ACIL, do CEAL, do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e da Associação do Desenvolvimento Tecnológico de Londrina e Região (Adetec), e pedia uma consulta mais abrangente junto aos especialistas que se colocaram à disposição para colaborar em possíveis “correções urbanísticas, comerciais, sociais, políticas, que há muitos anos vêm sendo postergadas, possam ser aplicadas”.

O documento alertou para o “período inoportuno” por conflitar com “a época dos festejos natalinos e Ano Novo” e elenca uma série de necessidades que deveriam ser atendidas de forma mais ampla e com mais planejamento. Entre elas a discussão sobre substituição ou não do petit pavé, redefinição do tipo de comércio no local, estudo do sistema de escoamento de água, inclusão de arborização no Calçadão e demais providências, contempladas em um “projeto urbanístico, técnico, funcional e social”.

O presidente da ACIL, Marcelo Cassa, destaca que “a instituição apoia o poder público de realizar uma obra tão esperada e nunca executada nos últimos 20 anos”. Mas, aponta como falhas o período natalino para iniciar a reforma e a falta de uma consulta à comunidade. Cassa ainda espera que o município dê mais extensão ao assunto “sem validar apenas os aspectos técnicos, mas os sociais e culturais também”.

Para André Sell ainda é tempo de rever a obra. “Estamos dispostos a oferecer nossos serviços ao poder público, não por considerar falta de capacidade dos profissionais que trabalharam neste projeto, mas por entendermos que a obra é emergencial e fundamental para a Cidade e o quadro de especialistas da prefeitura é reduzido. Além disso, é moderno fazer a gestão junto com a sociedade e associações de classe”.

O secretário municipal de obras, Marcelo Teodoro, afirma que o prefeito Barbosa Neto solicitou que seja realizada uma pesquisa “consultiva” junto à população para avaliar o nível de aceitação do novo Calçadão. Mas, antecipa que o resultado desta consulta não deve alterar o projeto. “A segunda etapa já está aguardando liberação de verba junto à Caixa e devemos continuar a obra”. A primeira etapa custou R$ 500 mil e a segunda está orçada em R$ 530 mil.

Teodoro argumenta que nem sempre é possível consultar a população para a realização de mudanças na Cidade. “Especialmente no caso do Calçadão o prefeito pediu agilidade, pois entendeu que, justamente pela importância do espaço para a população, era preciso dar uma resposta rápida”.

O secretário disse que o petit pavé é um material interessante, mas não adequado para nosso solo e acabou sendo fixado com argamassa, o que tirou a permeabilidade no local. “O paver não exige fixação com materiais adesivos, o que garante a infiltração de água, mas é importante destacar que o projeto de drenagem eliminou as grelhas, que eram perigosas para a segurança das pessoas e contemplou a captação através das depressões à margem das calçadas, com escoamento por baixo das floreiras, onde estão os bueiros”.

Quanto aos postes de energia elétrica espalhados pelo Calçadão, Teodoro explica que a prefeitura solicitou à Copel um projeto para a instalação subterrânea da fiação, “mas o custo ficaria muito elevado e não aprovamos”. Em relação aos bancos para descanso, ele lembra que a obra está em fase de finalização e que eles não estão em seu ponto definitivo. Sobre a memória da Cidade, Marcelo Teodoro aponta que pessoalmente acredita que possa ser preservado um espaço com o antigo calçamento, criando uma espécie de memorial do Calçadão, “mas esta é uma proposta minha, ainda não sentamos para discutir o assunto”.

Não há previsão para o fim da reforma total do Calçadão de Londrina, “vamos avançar conforme a liberação dos recursos e dos processos

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