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Ano 6 - Numero 91 - Janeiro 2010

Bons ventos
Cooperativas de crédito vivem momento positivo
Desempenho satisfatório em 2009, ano de crise mundial, fortalece ainda mais a união baseada no associativismo
Segundo o site do Sistema Ocepar, instituição que reúne cooperativas de vários segmentos instaladas no Paraná, “o cooperativismo é a forma mais evoluída do associativismo”, ambas formas de sociedade baseada tão somente na união para um objetivo comum. O princípio cooperativo estava fundamentado já em 1835, mas a atual estrutura empresarial de cooperativa surgiu em 1844, quando tecelões ingleses fizeram uma poupança com recursos próprios e, em seguida, fundaram uma cooperativa para adquirir bens de consumo em maior escala e obter preços diferenciados.
No Brasil, a ideia de cooperativa está ligada a instituições agrícolas, mas, nos últimos 30 anos, o formato se estendeu a outros 13 setores. O cooperativismo de crédito é um dos ramos mais fortes em diversos países desenvolvidos, como França, Alemanha e Canadá. Segundo a Ocepar, no Brasil ele já estava bem estruturado desde o início do século XX, mas foi desarticulado e desmantelado pelo Banco Central. Na década de 80 ressurgiu com força total.
As cooperativas de crédito se multiplicaram. Somente no Paraná somam 13 instituições, que chegam a 65, incluídas as unidades descentralizadas. A confiança dos cooperados nas instituições se reflete no desempenho satisfatório que todas demonstraram ao longo de 2009, período em que o Brasil e o mundo precisaram se adaptar às retrações impostas pela crise financeira internacional, desencadeada no final de 2008 nos Estados Unidos.
A Unicred, por exemplo, tem 122 singulares, como são chamadas as agências espalhadas pelo Brasil, 14 cooperativas filiadas em 24 estados brasileiros, nove centrais e a confederação nacional, com sede em São Paulo. No Paraná funcionam seis centrais, em mais de 200 cidades, com 18 mil cooperados. A do Norte do Paraná tem sede em Londrina, atende 15 municípios e 9 mil cooperados.
O diretor-presidente desta central, o médico Álvaro Jabur, destaca que o que “blindou” a cooperativa em relação aos efeitos da crise mundial “foram a boa liquidez e a credibilidade junto aos associados”. A Unicred oferece mais de 45 linhas de crédito, desde cheque especial, financiamento de equipamentos e mobiliário para consultórios e clínicas até a compra de imóveis profissionais e residenciais.
De acordo com o médico a grande vantagem das cooperativas de crédito está na solidez do seu capital, o que permite a realização de operações financeiras com taxas mais baixas do que o mercado tradicional pratica. “Há 12 anos procuramos ser o braço financeiro na área da saúde e acredito que estamos no caminho certo”.
Em 2008, a central do Norte do Paraná distribuiu R$ 16 milhões em “sobras”, como é chamado o lucro das cooperativas, o que significa que a empresa operou no mercado de forma positiva. Em março a expectativa é distribuir pelos menos R$ 23 milhões em sobras do exercício 2009. “O valor ainda está em fase de fechamento, mas estamos otimistas”, destaca Jabur. Para 2010 a Unicred tem planos ousados, ainda que a movimentação política das eleições possa influenciar o ritmo da economia nacional, avalia Jabur. A previsão é cumprir as metas estabelecidas.
O Sicoob, Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil, tem praticamente a mesma estrutura da Unicred, funciona dividido em centrais e singulares. Inclui, ainda, o Banco Cooperativo do Brasil S/A (Bancoob) e o Fundo Garantidor do Sicoob (FGS), entidades nãocooperativas destinadas a operacionalizar os processos e os serviços financeiros da instituição. Os produtos são cartões, cobrança, investimentos, linhas de crédito, seguros e serviços de conveniência.
Há 7 anos o Sicoob Paraná nasceu para atender à necessidade de expansão das cooperativas de crédito no Estado. O Sicoob atende empresários no Paraná em 18 cooperativas de crédito filiadas, mas no País são 14 cooperativas centrais, 633 singulares, além de postos de atendimento e 1,7 milhão de associados. Segundo o Sicoob Brasil, em 2008 foram totalizados R$ 14,8 bilhões de ativos.
Na central de Londrina, que abrange também os municípios de Rolândia e Ibiporã, o diretor-presidente George Hiraiwa destaca que a confiança mútua entre a instituição e os cooperados é a base do cooperativismo. “Hoje, o cooperativismo de crédito participa, em média, de 2,5% do sistema financeiro nacional, mas podemos crescer ainda mais, como em países europeus, que movimentam 30% do setor através de cooperativas de crédito”. Ele destaca que a crise internacional também não afetou o Sicoob, “pelo contrário, mantivemos nossos índices de crescimento e ampliamos a carteira de cooperados”.
Para 2010, a projeção de crescimento do Sicoob é entre 20 e 25% superior aos resultados de 2009. Em 2008, o Sicoob Norte distribuiu R$ 2 milhões em sobras e estima fechar 2009 com R$ 3 milhões em sobras. “A grande vantagem é que esse dinheiro fica nas cidades, não vai embora para as grandes capitais, e isso irriga a economia local”.
Hiraiwa destaca que o Brasil tem um potencial enorme de crescimento, em razão do futuro cenário macroeconômico mundial, como perspectiva de estabilidade financeira, consolidação da democracia, ampliação do poder aquisitivo da classe C por conta das políticas públicas e outros aspectos positivos. “Nesse sentido, precisamos difundir a proposta do cooperativismo de crédito, que é totalmente adequado a esse momento. Nosso sonho é ser referência de benefício econômico para a comunidade dentro de 10 anos”.
O Sistema Sicredi é formado por 130 cooperativas, cinco centrais, 1.079 unidades de atendimento e 1.479.978 de associados. A cooperativa tem como público alvo pessoas físicas de todos os ramos de atividade. O último levantamento financeiro de 2009 registrou R$ 8,3 bilhões de crédito. A atuação nos estados do PR, SC e SP envolve 25 cooperativas, 311 unidades de atendimento, 302.899 associados e R$ 1,9 bilhão em crédito.
Em 2009, a Sicredi Maringá juntouse a outras duas da região, a de Astorga e de Cornélio Procópio. Com a fusão, a cooperativa, atingiu ativos de R$ 550 milhões, uma área de atuação que compreende 75 municípios, 50 unidades de atendimento e 35 mil associados. Tornou- se a Sicredi União. O presidente, Wellington Ferreira, informa que “mesmo em um ano de retração da economia devido à crise financeira mundial e às estiagens que devastaram as safras, os números são robustos”.
Segundo Ferreira, as operações de crédito cresceram 15% em relação a 2008, de R$ 296,4 milhões para 341,2 milhões. Mas, mesmo com índices positivos, ele lembra que em 2009 os efeitos da crise mundial impactaram a economia regional, principalmente no primeiro semestre, e que a agricultura “ainda é um dos pilares da cooperativa de crédito” e sofreu reveses devido a estiagens.
Para ele, o ano que passou foi mais importante para a consolidação da cooperativa e do próprio sistema, para se “preparar a casa” rumo ao crescimento projetado para 2010 e anos seguintes. Uma inovação operacional foi transferir as operações para a internet, “as filas nas unidades diminuíram”. Agora, a previsão é que dez novas unidades de atendimento sejam abertas em 2010, três delas no município de Londrina. A principal estratégia, segundo ele, está em disseminar a essência cooperativista, fazer o público entender que, na cooperativa, não há clientes, mas donos, “o que faz toda a diferença”.
A Sicredi União apresenta, ainda, outras duas metas para os próximos anos. A primeira é alcançar os dois dígitos em depósitos, na média geral de suas unidades. A segunda é, até 2012, dobrar o número de associados, chegando aos 70 mil. As sobras de 2008 atingiram R$ 5 milhões e a previsão de sobras de 2009 fica em R$ 2 milhões. Uma novidade foi a criação da holding Sicredi Participações S.A., que passa a administrar todas as organizações que integram o Sistema Sicredi. São elas: o Banco Cooperativo Sicredi, a Corretora de Seguro e Previdência, as Administradoras de Cartões, Consórcios e Bens, bem como a Confederação Sicredi e a Fundação Sicredi.
Cooperativismo - Em 1835, um dos grandes precursores do cooperativismo, Robert Owen, iniciou um projeto com o objetivo de internacionalizar o sistema, criando a “Associação de todas as classes de todas as nações”, que sugeria a constituição de uma cooperativa central com sucursais em todas as partes do mundo. Devido a vários fatores, a ideia não vingou, porém, a semente foi lançada. Na Inglaterra, berço da primeira cooperativa do mundo moderno; na França, pioneira das cooperativas operárias de produção; na Alemanha, onde Schulze Delitsch e Raiffeisen constituíram as primeiras cooperativas de crédito; na Escócia e em vários outros países foram organizadas uniões, federações e confederações de cooperativas que criaram as condições para a articulação da constituição de uma entidade internacional de representação do cooperativismo.
A Aliança Cooperativa Internacional (ACI) nasceu em 1895 e foi a primeira organização não governamental a quem as Nações Unidas concederam status de órgão consultivo. Seu objetivo principal é promover e fortalecer cooperativas autônomas em todo o mundo. Presente nos cinco continentes, esta associação independente e não governamental reúne, representa e apoia a autonomia, integração e desenvolvimento do cooperativismo. A ACI congrega mais de 800 mil cooperativas e 810 milhões de cooperados. Sua sede fica em Genebra, na Suíça.
O sistema cooperativista nacional é representado pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), com sede em Brasília, criada em 1971 para atuar como representante legal de todos os ramos do sistema cooperativista nacional e como órgão técnico consultivo do governo, congregando as organizações estaduais constituídas com a mesma natureza. Levantamento de 2005 contabilizou 7.518 cooperativas associadas e mais de 6.791.054 cooperados.



