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Ano 6 - Numero 89 - Novembro 2009

Negócios
Negros formam mercado inexplorado
Integrantes do Conselho Municipal da Promoção da Igualdade Racial alertam: Londrina literalmente ignora o potencial de consumo representado pelos afrodescendentes. Classe média negra é a que mais cresce no País
Segundo o último censo do IBGE, a classe média negra é a que mais cresce no Brasil. Além disso, 67% dos negros estão casados com negros, o que deve aumentar ainda mais a população negra no País. Mas representantes desta parcela da sociedade alertam que a economia brasileira não está voltada para o negro.
O presidente do Conselho Municipal para a Promoção da Igualdade Racial de Londrina, José Mendes de Souza, diz que 24% dos londrinenses são negros. “E mesmo com todo esse público consumidor potencial, não há no comércio lojas para atender nossas necessidades como vestuário e alimentos típicos e essa é a realidade da maioria das cidades do País, apesar da forte participação negra na formação do Brasil.”
Mendes e a gestora do Conselho, Fátima Beraldo, listam uma série de itens, como tecidos com estampas étnicas, cosméticos e comidas que eles precisam comprar em São Paulo, quando poderiam aquecer a economia de Londrina. “São elementos que remetem à nossa origem, à nossa cultura e religião e ficamos privados deles na maioria das cidades brasileiras e também aqui”, observa Fátima.
Eles informam que dos mais de 5 mil municípios brasileiros, pouco mais de 400 têm conselhos como o de Londrina e que através desses organismos estas comunidades estão avançando em oportunidades e mudando, ainda que lentamente, a realidade dos negros dessas localidades.
Segundo Mendes, o negro que chegou em Londrina é o mesmo que se instalou no Norte Novo com caravanas, homem livre, disposto a explorar a terra e se estabelecer. “Eles sempre estiveram por aqui, só que a história não conta. Estudos revelam que quando os pioneiros chegavam na beira do Tibagi viam índios e negros, mas assim como houve um verdadeiro genocídio de índios, é possível que o mesmo tenha ocorrido com os negros”. Ele diz que há poucos remanescentes de quilombos no Paraná e essas comunidades ficam mais no Centro-Sul do Estado.
Eles argumentam que vários elementos são peças fundamentais de resgate da cultura africana, de suas origens. Os tecidos étnicos são fabricados com fibras, texturas, cores e estampas específicas. Fátima explica que cada um tem um significado, de acordo com a região de onde vem. Entre as cores características estão o vermelho, verde, amarelo, terracota, ocre, ouro, enfim, cores vivas ligadas a aspectos místicos e culturais, que segundo ela não existem nas lojas de Londrina. “O negro, em sua forma, é circular e a geometria das estampas reflete esse princípio africano, assim como a dança, e um dos exemplos mais comuns é a capoeira, e até mesmo a antiga prática da contação de histórias se faz com as pessoas em círculo, são aspectos que remetem aos nossos ancestrais e reforçam nossa identidade, por isso buscamos peças com essa referência.”
Segundo a gestora, é importante que o comércio desperte para esse mercado, pois ambos os lados, lojista e consumidor, têm a ganhar. “Gostamos de nos vestir, de nos maquiar e de nos alimentar de acordo com nossas origens, mas precisamos buscar toda essa mercadoria fora daqui”.
Mendes informa que não só a população negra de Londrina, mas da região, é carente de produtos étnicos. “Pessoas de Maringá e Paranavaí também recorrem a São Paulo, quando poderiam comprar tudo em Londrina, em lojas étnicas aqui e reforçar a economia local”. Ele sugere que a ACIL tome a iniciativa de sensibilizar os lojistas para atender essa parcela da população.
Outro nicho, segundo Fátima, é a gastronomia, já que as religiões africanas têm muitos de seus rituais baseados nos alimentos. “Fazemos muito do nosso resgate cultural através da religião e, portanto, consumimos produtos típicos e, mesmo os aparentemente mais simples, como o azeite de dendê, têm que vir de fora, o camarão seco e até mesmo condimentos como a bergamota, nada disso encontramos em Londrina nem pela região”.
Para a prática da religião são utilizados arroz e feijão típicos, pedras, contas, velas, esteiras, adereços, enfim ingredientes específicos e em grande volume. “Os terreiros de umbanda e candomblé de Londrina e região têm uma grande demanda por esses produtos e eles faltam na Cidade.”
Fátima destaca que o público negro consumidor está em ascensão também por conta da política de cotas do Governo Federal, nos últimos anos. “As cotas estão provocando mudanças na sociedade brasileira e também no mercado. Hoje temos mais profissionais negros e isso é muito importante do ponto de vista da identificação. Para uma mãe negra, por exemplo, é bom ver o filho atendido por um médico negro, assim como um administrador negro gerenciando um colaborador negro.” Mendes ressalta que até mesmo a Medicina ainda não pesquisa a fundo doenças específicas de negros, como a anemia falciforme e um tipo raro de hepatite. “Alguns estudos mais profundos começaram, mas ainda são muito recentes, são poucos os médicos que se dedicam ao assunto.”
Outro segmento comercial pouco explorado seriam os cosméticos, que segundo Fátima, devem ser específicos para o tipo de pele e cabelo negros. Para os cabelos ela lista uma variedade de adereços, shampoos, condicionadores, e cremes para a pele negra. “Em São Paulo é produzida uma linha completa, mas nenhuma loja de cosméticos londrinense e nenhum salão de beleza se interessou em trazer os produtos para cá.” Até os perfumes são étnicos. Segundo ela, a essência europeia é diferente da africana, por isso, os perfumes também o são.
Mendes evoca o caráter vanguardista que, segundo ele, Londrina sempre teve e propõe que a ACIL faça um estudo amplo, tanto do potencial consumidor do público negro como também do mercado de trabalho para essa parcela da população. “Podemos fazer uma parceria com a ACIL com o objetivo de chegarmos ao perfil da população negra de Londrina e inclusive ir além, podemos tirar o negro da invisibilidade em que ele vive hoje e ao mesmo tempo abrir espaço para outros mercados.”
Para Fátima, as cotas estão dando a oportunidade aos negros de ocupar vagas não mais apenas no chamado “chão de fábrica”. Ela acredita que os negros que têm acesso às universidades passam a trabalhar por todos os negros. “Hoje temos o estímulo de nos transformar em empreendedores de vários setores profissionais. Só assim vamos diminuir o preconceito e nos tratar como indivíduos, respeitando as diferenças.”



![Fátima: “Em São Paulo é produzida uma linha completa [de cosméticos], mas nenhuma loja de cosméticos londrinense e nenhum salão de beleza se interessou em trazer os produtos para cá”](http://www.acil.com.br/img/jornal/284/fatima_43_1.jpg)