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Ano 6 - Numero 87 - Setembro 2009

Jornal da ACIL
Rua com história e com futuro

Reprodução de fotografia da construção da Concha Acústica, um marco na história da rua.

  • Reprodução de fotografia da construção da Concha Acústica, um marco na história da rua.
  • A esquina com a rua Goiás, um dos pontos mais movimentados da Souza Naves
  • Casa construída na Souza Naves. De João Alfredo de Menezes, que presidiu a ACIL
  • Casa construída na Souza Naves. Ainda em obras e não identificada
  • “Tem um fluxo muito grande de pessoas devido a sua proximidade com o Calçadão e terminal de ônibus. É uma rua de fácil acesso para a população” Edilaine dos Santos
  • Tino Benatto mudou-se com a família para a rua quando tinha quatro: “É verdade que agora não conhecemos mais ninguém e ninguém nos conhece, mas não queremos sair daqui”
Artéria Urbana

Rua com história e com futuro

A Senador Souza Naves é uma das principais vias comerciais de Londrina. É também uma mistura do pioneirismo com a tecnologia, do “matagal das antas” e do comércio que só faz crescer

Érika Pelegrino
Especial para a ACIL

A rua Senador Souza Naves é eclética. É marcada pela diversidade de estabelecimentos: saúde, educação, bancos, escritórios de advocacia, contabilidade, butiques e tudo que se pode imaginar. É uma rua como poucas em Londrina, onde as pessoas podem encontrar praticamente qualquer coisa de que precisam. Inicia na Alameda Miguel Blasi, logo após a rotatória que a separa da rua Minas Gerais e termina na rua Presidente Costa e Silva, depois do Monumento à Bíblia.

É uma grande extensão de comércio e história. Os que hoje estão ali a consideram o melhor ponto comercial da Cidade e foram atraídos pela sua diversidade, mas cada um tem seu motivo específico para gostar desta rua.

A Panificadora e Conveniência Café Brasil, há 10 anos encontrou seu espaço na Souza Naves. Já mudou do número 255 para o 189. São 80 metros entre um endereço e outro, mas sair da rua, nem pensar. O grande atrativo para seu gerente César Ferrati são a Santa Casa e o Sistema de Assistência à Saúde (SAS).

“No começo de mês, que é o pico do movimento deles, nosso movimento também aumenta muito”, conta Ferrati. Ele afirma que viu, nestes anos, o fluxo de pessoas na panificadora crescer em 20%. “O ponto aqui é muito bom. E para nós, principalmente por causa dos hospitais.”

Segundo ele, a grande concentração de clínicas é a maior responsável pelo alto movimento da rua e contribuiu muito para o seu desenvolvimento. “Como viram que a rua atrai muitas pessoas que vêm se consultar, fazer tratamentos, vários comércios foram se transferindo para cá nos últimos anos. Até bancos se instalaram aqui.” Junto com a avenida Bandeirantes, a Souza Naves forma o pólo da saúde em Londrina.

Só na Souza Naves, estão três hospitais. A Santa Casa de Misericórdia, um dos três hospitais de maior complexidade de Londrina, que atende pessoas da região toda. E que também é o mais antigo ainda em funcionamento. Foi fundado em 1944. A maternidade Mater Dei e o Hospital de Olhos de Londrina (Hoftalon). A rua ainda abriga mais de 100 clínicas e consultórios odontológicos.

Ferrati conta que estão tão bem estabelecidos no local que também querem dar sua contribuição. “Vamos fazer isso vendendo cartão da Zona Azul. Não teremos lucro nenhum, apenas achamos que é importante prestar um serviço para a comunidade.”

Para compor um perfil mais centrado na saúde, embora tenha um comércio bem diversificado, a Souza Naves ainda possui mais de 10 farmácias. A mais antiga da rua é a Farmácia Central, fundada em 1951, por Alceno Segantin. Ele chegou a Londrina em 1938, com 14 anos, e já começou a trabalhar com farmácia até tornar-se proprietário da Central, que só vendeu em 2003 para aposentar-se.

Moisés de Souza é funcionário atual da Farmácia Central e afirma que a rua é excelente ponto comercial. “È uma das melhores ruas em Londrina. Porque aqui só tem comércio”, afirma. Outro ramo que reconheceu o potencial da Souza Naves e se estabeleceu ali é o de óticas. Praticamente em cada esquina pode-se encontrar uma.

“O forte da rua antes eram as farmácias. Com a vinda de muitos oftalmologistas para cá, cresceu bastante o número de óticas”, afirma Edilaine Dias dos Santos, consultora ótica da Visolux. Além do grande número de consultórios de oftalmologistas e do Hospital dos Olhos, a consultora ressalta ainda mais um atrativo da rua para as óticas. “Tem um fluxo muito grande de pessoas devido a sua proximidade com o Calçadão e terminal de ônibus. É uma rua de fácil acesso para a população.”

Hotéis - A grande concentração de estabelecimentos comerciais atrai também comerciantes, industriais, políticos, profissionais liberais de outras cidades e Estados. Gente que se hospeda em hotéis como o Coroados. “Aqui tem muito comércio. Isto traz muitos vendedores de fora de Londrina e para nós é muito bom. Tem muito vendedor de óculos que vêm atender as óticas, muitos vendedores de sapato. Aqui no nosso hotel eles estão muito próximos de seus clientes”, afirma o gerente proprietário Luiz Alberto Vicentini.

Os hospitais da rua Souza Naves também trazem hóspedes para o Coroados. “Eles indicam a gente para os pacientes que vêm de fora de Londrina fazer tratamento aqui. Sabem que nós tentamos ajudar nos preços, por que sabemos que podem estar passando alguma dificuldade financeira por causa do problema de saúde”, afirma.

O Coroados está na família de Vicentini desde 1963, quando Immo Vicentini, que estava no ramo hoteleiro desde 1953 e tinha o Monções Hotel, decidiu comprar o prédio do Hotel Londrina. Depois de um ano e algumas reformas, o reabriu com o nome de Hotel Coroados. De lá para cá outros hotéis foram se estabelecendo na rua Souza Naves, que hoje conta também com o Sumatra, Donna Linda e Igapó.

O Sumatra, no local desde 1984, se destaca como um centro de convenções. E atrai para Londrina e para a rua um público especializado e que representa diversos segmentos, entre eles o político, o industrial e de negócios em geral. “Quem quer lançar um produto, fazer uma convenção política, congressos utiliza nossos serviços”, afirma o diretor do hotel Paulo Muniz.

Ele afirma que a localização do Sumatra acaba sendo privilegiada por estar na Souza Naves, esquina com uma das principais artérias da cidade, a Avenida JK, que dá acesso ao Aeroporto, Rodoviária e rodovias que levam a grandes cidades como São Paulo e Curitiba. “A Souza Naves está ligada através da JK a outras artérias importantes da Cidade como a Tiradentes e 10 de Dezembro”, afirma. Esta localização estratégica, embora não tenho sido planejada, faz com que a Souza Naves cresça ainda muito mais e atraia novos empreendimentos, acrescenta Muniz.

“Eu acredito que nos próximos 10 anos esta rua ainda vai passar por grandes transformações para comportar este crescimento. Sem dúvida irão surgir empresas especializadas em estacionamentos verticais, por exemplo”, afirma.

Matagal - Essencialmente comercial, a Souza Naves ainda guarda algumas poucas residências e nelas a história da rua e de Londrina. Na esquina com a rua Goiás, uma casa antiga e seus três moradores são testemunhas do início da Souza Naves, quando ela ainda se chamava Minas Gerais e era cercada por mata fechada.

Quando Omeletino Benatto chegou a Londrina com os pais – João Antônio Benatto e Josephina Lourençon Benatto – e os irmãos, era 25 de março de 1934 e a rua estava aberta apenas até onde hoje é a Espírito Santo. A família se instalou em uma casa de madeira, onde atualmente é o prédio do Centro Comercial. Ele tinha pouco mais de quatro anos. Nunca mais saiu da Souza Naves.

Com quase 80 anos, Tino Benatto, como é conhecido, lembra que em frente à sua casa tinha o farmacêutico Daniel Gomes Lemos, onde hoje é a farmácia Londrifórmulas. No lugar do edifício Júlio Fuganti, tinha uma escola e mais tarde um hospital. A partir da Rua Espírito Santo era mato. “Ali ficavam algumas antas de propriedade do capitão Aquiles Pimpão”, recorda-se. Por isso, o lugar ficou conhecido como “matagal das antas”.

Tino Benatto vai puxando pela memória e a rua Souza Naves vai se transformando. Ao lado da casa de madeira onde morava, onde agora é a Concha Acústica, surge Rodoviária de Londrina, que antes ficava onde está o Teatro Ouro Verde. O ano é 1941. No ano seguinte, a família de Tino Benatto se muda para a casa onde ele e duas irmãs moram até hoje: na Souza Naves, esquina com a Goiás. São 75 anos na mesma rua, 66 no mesmo endereço.

“Foi muito difícil para o papai construir esta casa. Foram mais de dois anos. Por isso não vendemos”, conta. A família faz parte dos muitos pioneiros anônimos que ajudaram a construir a história de Londrina. “Meu pai foi um dos fundadores da Santa Casa, mas assim como ele, muitos outros vizinhos nossos que também ajudaram não assinaram as atas e por isso seus nomes não estão nesta história”, conta Tino Benatto, sem nenhum ressentimento.

“As reuniões para a construção da Santa Casa começaram em 1936. Em 1940 teve a missa campal e em 1944 o hospital foi inaugurado”. Ele conhece esta história na ponta da língua. Ainda hoje é tesoureiro do hospital. Tino Benatto viu a rua de terra, o “matagal das antas”, se transformar em uma das vias comerciais mais importantes de Londrina em pouco mais de sete décadas.

Viu as casas de madeira sendo erguidas trazendo famílias de vários lugares da região para a Souza Naves. Viu também aos poucos cada uma destas casas virem abaixo para dar lugar a prédios comerciais grandes ou pequenos. Os vizinhos se foram. Mas os Benattos continuam no mesmo lugar. “É verdade que agora não conhecemos mais ninguém e ninguém nos conhece, mas nós não queremos sair daqui.”

A fala de Tino Benatto representa as contradições e riqueza de uma rua como a Senador Souza Naves. Em meio a toda efervescência comercial, algumas casas ainda se mantêm ali, em pé, guardando e impondo a história da rua e de Londrina.

Servidor, político, honesto

Todo londrinense sabe onde fica a rua Senador Souza Naves. Mas o que a grande maioria não sabe é quem foi, afinal, o senador Souza Naves. Conhecendo um pouco da história do homem que deu nome a uma das ruas mais importantes de Londrina, fica claro que a homenagem foi mais do que merecida.

Nascido em Uberada (MG), de origem humilde, Abilon de Souza Naves (1905-1959) foi o primeiro senador eleito pelo PTB no Paraná. Antes, havia ocupado cargos importantes como diretor da Caixa Econômica Federal, presidente do Ipase (instituto de previdência do Estado), secretário do Trabalho e Assistência Social e diretor da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial do Banco do Brasil.

Souza Naves era tido como homem honesto, que adorava a política, mas não abria espaço para a corrupção. Perfil reafirmado em reportagens da época e numa crônica assinada pelo jornalista David Nasser na edição da revista “O Cruzeiro” de 16 de janeiro de 1960. Um dos mais controversos repórteres de sua época, reconhecido como um célebre criador de histórias, Nasser definia Souza Naves como um grande amigo.

No texto, que leva o título “Uma boneca para Beatriz” é dirigido a uma das filhas de Souza Naves, de oito anos, Nasser escreve: “Abilon de Souza Naves e era político, mas sobretudo homem de bem. Lidava com bilhões e morreu pobre. Conseguiu, o pai de Beatriz, manter-se incólume, apesar do tempo que estêve na presidência do Ipase e em outros cargos importantes, onde o dinheiro corria igual a um rio, sempre para o mar”.

A carreira política de Souza Naves foi extremamente bem sucedida. Bom orador, hábil na condução do eleitorado e das bases partidárias, não só fazia muitos votos como também trazia consigo aqueles a quem apoiava. No dia 3 de outubro de 1958, foi eleito senador pelo PTB e era tido como virtual candidato a governador do Paraná nas eleições seguintes. Era amigo pessoal de Jânio Quadros, que dois anos depois assumiria a Presidência da República pela UDN e, em 1985, se tornaria prefeito de São Paulo pelo PTB.

Servidor, político, honesto

Senador Souza Naves

Mas a carreira de Souza Naves foi interrompida na noite de 12 de dezembro de 1959, na Sociedade Morgenau, em Curitiba, durante banquete político realizado em homenagem a ele, já considerado um candidato sem concorrentes ao governo. O senador teve um enfarte e morreu ainda dentro do clube, no auge de sua carreira.

A herança deixada para a viúva e os filhos foi mínima. A casa em Curitiba ainda estava sendo paga e só foi quitada por causa da morte do titular do financiamento. Nada mais.

O nome da rua que todo londrinense conhece tem origem nobre por homenagear homem que nasceu pobre, virou senador e morreu sem manchar as mãos.

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