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Ano 6 - Numero 86 - Agosto 2009

H1N1
O vírus que muda hábitos
Cidade tem rotina alterada pelo medo das pessoas e pelas medidas determinadas pelas autoridades sanitárias, pelo governo e pelas empresas. Ordem é evitar ao máximo as formas de contágio
Desde abril, quando começaram a aparecer as primeiras notícias sobre uma nova gripe que havia atingido o México e os Estados Unidos e que se espalhava rapidamente por outros continentes, o mundo não foi mais o mesmo. Inicialmente conhecida como gripe suína, a nova doença assustou as pessoas e transformou hábitos. Em Londrina, a doença provocou a suspensão das aulas nas escolas e faculdades particulares – as redes municipal e estadual de ensino já haviam adiado o retorno às atividades após as férias de julho como forma de reduzir os riscos de contágio.
A partir do aumento no número de casos, os governos federal, estadual e municipal, além de entidades da sociedade civil e empresários, começaram a mobilização para evitar a transmissão do novo vírus. Em Londrina, um comitê gestor para propor ações foi montado, o Pronto Atendimento Municipal (PAM) foi transformado em centro de referência para gripe, aulas foram suspensas, aumento do número de ônibus em circulação nos horários de pico, alterações no horário de funcionamento do em agências bancárias, orientações para que se evite aglomerações, utilização de máscaras e álcool gel.
Por iniciativa da ACIL e de um grupo de entidades, a Prefeitura autorizou as empresas da Cidade a adiar o horário de fechamento em meia hora, das 18 horas para as 18h30. As entidades lançaram em conjunto um modelo alternativo de horário de funcionamento de empresas comerciais e de serviços como forma de evitar a superlotação dos ônibus urbanos nos horários de pico. Na prática, as lojas adiariam sua abertura em meia hora e passariam a fechar às 18h30. Para as empresas de serviço, a sugestão é para que mantenham a abertura às 8 horas e fechem as portas meia hora mais cedo, às 17h30.
O presidente da ACIL, Marcelo Cassa, afirma que o modelo proposto tem adesão espontânea e é exatamente essa a idéia. “O que temos hoje, com a autorização da Prefeitura, é uma condição especial que permite às empresas alterarem ou manterem seus horários de funcionamento, de acordo com a realidade de cada uma”, explica. Isso faz com que os empresários façam sua opção dentro de suas possibilidades.
Outras medidas importantes fazem parte das sugestões feitas às empresas. Entre elas estão a dispensa de todo funcionário que apresentar sintomas da doença, a higienização constante do mobiliário de uso comum e conscientização dos colaboradores sobre a doença e formas de combater o contágio.
Identificado como Influenza A subtipo H1N1, o vírus causador da nova gripe é o mesmo da gripe espanhola, que no século passado matou entre 40 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, principalmente na Europa e Ásia. A diferença é que ao longo do tempo o organismo sofreu mutações, combinando o DNA da gripe espanhola com uma gripe que atingia apenas porcos e a gripe aviária.
A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) rapidamente elevou o nível de ameaça da gripe de acordo com a escala da internacional para pandemia. Ou seja, em junho a doença já era transmitida entre a população em todo o mundo.
Mas por que tanto medo? O médico pediatra e coordenador do Centro de Referências de Imunobiológicos Especiais da Universidade Estadual de Londrina, Gerson Zanetta de Lima, explica que a OMS já esperava uma epidemia de gripe desde a década de 80. “Como o vírus não é conhecido, ninguém tem imunidade a ele, portanto todos estão susceptíveis”, diz.
Segundo o médico, o medo se dá por causa dos históricos de epidemias de gripe. Somente no século passado foram três: a gripe espanhola em 1918, com o número de mortos estimado em até 100 milhões de pessoas, a gripe asiática no final da década de 50, que matou entre um milhão e um milhão e meio de pessoas e a gripe de Hong Kong, que no final da década de 60 matou aproximadamente um milhão de pessoas. “Quando começou o surto da gripe suína estimava-se que o vírus teria uma letalidade de até 7%, mas depois se percebeu que a letalidade era menor, 0,1%”, analisa Zanetta.
Um vírus pode ser classificado de acordo com três categorias, a contagiosidade, que é a facilidade que o vírus tem para passar de pessoa a pessoa, a infectividade, que é a capacidade de se instalar em um organismo, e a virulência, poder de produzir casos graves e matar. Para Gerson Zanetta e Lima, a virulência do vírus H1N1 é pouca, mas a contagiosidade e a infectividade são bastante grandes. “A letalidade é baixa, mas é a primeira vez que uma pandemia está sendo tratada com um medicamento específico antiviral. Não fosse isso talvez estivéssemos com uma letalidade maior”.
Para o secretário municipal de saúde, Agajan der Bedrossian, a prevenção é a melhor forma de evitar a gripe. “Como não temos ainda vacina nem um medicamento específico, uma vez que o Tamiflu, que dá resultados, mas não foi desenvolvido especificamente para essa doença, a melhor coisa a fazer é lavar bastante as mãos com água e sabão e na impossibilidade usar o álcool gel, além de se evitar aglomerações. Esses cuidados deveriam ser permanentes, não só para evitar a nova gripe, mas como forma de higiene”, explica o secretário.
O médico Gerson Zanetta de Lima comenta que a virulência do H1N1 está baixa porque medidas de prevenção foram tomadas pelas autoridades. “Se esse vírus matasse 4% dos doentes, seria o caos na Cidade. Teríamos exército na rua. A Organização Mundial de Saúde diz que em uma pandemia de gripe é preciso estar preparado nos níveis federal, estadual, municipal e individual. Se a virulência fosse alta na pandemia, faltariam água, luz e gás. Agora, são necessárias medidas para interromper a transmissão. Parar as aulas não tem impacto na epidemia, mas a epidemia tem impacto na sala de aula”, analisa Zanetta.
O secretário diz ainda que o governo não está escondendo os números reais da gripe, como alguns e-mails de autoria não identificada têm afirmado. “A pior pandemia é a da desinformação e do boato. Só vamos conseguir controlar a doença quando a população se informar. Não há motivo para o governo esconder informações”, argumenta.
Segundo o Ministério da Saúde, mais de 80% dos casos de gripe registrado atualmente no País são do H1N1, mas nem todos evoluem para casos graves. Para o secretário municipal de Saúde, a tendência é que com o passar do tempo a gripe A se torne uma gripe comum. “Na medida em que nós tomarmos contato com o vírus, o organismo cria resistência e a doença se tornará uma gripe sazonal. Isso se não sofrer mutações”, explica Agajan der Bedrossian.
Com a chegada das estações mais quentes do ano a tendência é que a circulação do vírus H1N1 caia. Mas questionado sobre o prognóstico para o futuro, Gerson Zanetta de Lima diz que é impossível fazer qualquer previsão. “Ainda estamos aprendendo com o vírus. Só conseguiremos falar se os protocolos do governo falharam com o tempo. Até hoje se estuda a epidemia da gripe espanhola. Só conseguiremos falar com propriedade sobre a gripe A quando tivermos estudos sobre ela”, acrescenta Zanetta.
Pelo Centro da Cidade, lojistas e a população, todos demonstram ter medo. E se a recomendação para evitar aglomerações não está sendo seguida como deveria, pelo menos o hábito de lavar as mãos constantemente e desinfeta-las com álcool gel já se tornou rotina. Laércio Terense, proprietário de uma loja de lingeries, diz que passou a dispensar os funcionários com qualquer sintoma de gripe e a orientá-los a higienizar as mãos muitas vezes ao longo do dia. Apesar de não ter aderido ao horário diferenciado do comércio, na loja o álcool gel está à disposição dos clientes. “Dá medo, mas nós não podemos ficar em uma neura, senão não vivemos e nem trabalhamos”, argumenta Terense.
Leia Bertran Araújo, gerente de uma loja de moda jovem, disse que em duas semanas já usou mais de cinco frascos de álcool gel. O produto também fica a disposição dos clientes, mas ela reclama que a população não colabora. “É complicado quando alguém entra na loja e espirra próximo das roupas penduradas. Passamos a usar o álcool frequentemente para, além de higienizar as mãos, limpar os espelhos e o balcão, onde as pessoas mais encostam”, afirma Leia.
Levantamentos mais recentes, divulgados no fechamento desta edição, colocam o Paraná como o segundo Estado com maior número de mortes provocadas pela gripe A, com 170 óbitos. São Paulo aparece em primeiro, com 223 mortes. Rio Grande do Sul é o terceiro da lista, com 98 óbitos. No Paraná, a região de Curitiba tem o maior número de vítimas fatais, 63, seguida de Foz do Iguaçu, 15, Cascavel, 14. As regionais de Maringá, Toledo e Londrina registram 9 casos cada uma. A Cidade de Londrina tem duas vítimas fatais oficialmente confirmadas. A única regional da Secretaria de Saúde a não apresentar óbitos pela gripe A é a de Umuarama, no Noroeste do Estado.
“Tive muito medo”
Servidor público, 42 anos, Jéferson Luis Inácio viu sua vida mudar na manhã do dia 25 de julho. Horas depois de apresentar primeiros sintomas de gripe, correu para um pronto socorro, onde foi medicado. Na terça-feira, foi internado às pressas com quadro grave. Era a gripe suína. Três filhos dele também ficaram doentes
O servidor da Câmara Municipal de Londrina Jéferson Luis Inácio, de 42 anos, passou pela experiência de ficar internado por conta da gripe A. Ele enfrentou um verdadeiro drama que viveu entre os dias em que antecederam os primeiros sintomas e o período em que ficou internado com pneumonia.
Os sintomas começaram num sábado de manhã, dia 25 de julho. “Na sexta-feira à noite eu sai para fazer um trabalho e voltei para casa normalmente. Não sentia absolutamente nada. No sábado já acordei com 40º de febre, dor no peito, tosse seca e dor nas articulações.”
Quando chegou a noite ele foi ao Pronto Socorro do Hospital Mater Dei e lá examinado e medicado. “O médico não pode confirmar se era a gripe A. Me receitou analgésicos e antitérmicos e pediu para observar.” No domingo, a febre abaixou, mas os sintomas continuaram. Já a tosse que estava seca começou a ficar com secreção, o peito começou a chiar e a garganta inflamou.
Na segunda-feira a tosse aumentou e a febre voltou. Na terça, Jéferson foi a um médico particular e lá constatada pneumonia nos dois pulmões. Levado imediatamente para o hospital, teve a notícia que o deixou com medo. “De acordo com o infectologista, se eu tivesse demorado mais seis horas para procurar atendimento, já teria entrado em estágio terminal, diante da gravidade da complicação. Em 48 horas meu quadro clínico piorou rapidamente. Confesso que a partir daí fiquei com medo.”
O servidor ficou três dias internado no Mater Dei. Ao receber alta, passou mais sete dias isolado em casa, sob o acompanhamento da Vigilância Sanitária. “A vigilância ligava todos os dias para monitorar minha família.” Jéferson mora com a mulher e quatro filhos. Ele teve contato ainda com a sogra e com o namorado da filha. Segundo ele, todos foram monitorados.
Dos quatro filhos três pegaram gripe logo depois. “Eles tiveram febre, tosse e dor no corpo, mas a gente não sabe se era a gripe A porque os sintomas eram mais fracos e a doença não evoluiu.” Jéferson diz acreditar que o caso dele tenha evoluído para uma pneumonia porque estava fazendo um tratamento para hérnia. “Há 40 dias estava tomando uma medicação fortíssima para dor, mais a correria do dia-a-dia a minha imunidade foi lá em baixo”, avalia.
Jéferson: “Em 48 horas meu quadro clínico piorou rapidamente. Confesso que a partir daí fiquei com medo”
Sobre o contágio, Jéferson Luis Inácio supõe que tenha ocorrido no Sistema de Assistência à Saúde (SAS), do Governo Estadual. “Durante o período de tratamento da coluna eu aproveitei para fazer um check-up pelo SAS. Lá o ambulatório é estreito, cadeira dos dois lados e gente de tudo quanto é Cidade. É o único lugar possível”, arrisca.
O resultado positivo para a gripe A chegou no dia 12 de agosto. Já de volta às atividades normais, o servidor da Câmara Municipal de Londrina garante que agora ele e família estão mais rígidos em relação à prevenção. “Reduzimos as saídas para lugares com muita gente, passamos a lavar muito mais as mãos, procuro evitar cumprimentos com abraços e beijo e evitamos compartilhar copos e outros objetos.”







