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Ano 5 - Numero 80 - Fevereiro 2009

Agronegócio
Genética animal, a indústria da excelência
Londrina é um dos principais centros brasileiros de produção e comercialização de sêmen bovino de alta qualidade e valor agregado. Uma vaca chega a “faturar” R$ 200 mil por ano
Londrina entrou para a história da pecuária nacional e mundial no final da década de 1960, quando o criador Celso Garcia Cid importou o primeiro lote de gado Nelore, com pouco mais de 1.600 animais da raça zebuína nativa da Índia.
O médico veterinário Célio Arantes Heim, membro do conselho técnico da Sociedade Rural do Paraná (SRP), conta que os veterinários do Ministério da Agricultura na época ameaçaram fazer greve para evitar que a raça, até então desconhecida, entrasse no País. “Quando tudo se resolveu, o presidente Juscelino Kubitschek saiu de Brasília especialmente para conhecer os animais, na Fazenda Cachoeira, aqui no Paraná”.
Quase cinqüenta anos depois, a Cidade revela o quanto progrediu no segmento, o quanto se tecnificou e porque é referência em qualidade de Nelore e outras raças.
Com a evolução da demanda por carne, os especialistas buscaram formas de acelerar a multiplicação do plantel e melhorar a qualidade do produto. Entre as décadas de 1970 e 1980 a inseminação artificial se concretizou como uma forma de reprodução que atendia essa exigência.
Na década de 1990 a fertilização in vitro passa a ser uma realidade e agiliza ainda mais o setor. A transferência de embriões evolui paralelamente, porém, é utilizada para garantir a qualidade de animais “excepcionais”, que valem a pena o investimento no procedimento, que é caro. “A vaca tem poucos bezerros por ano e o filho de um animal de origem comprovada, de genética melhorada, vale tanto quanto a mãe ou o pai”, explica Heim.
Preço, aliás, é um aspecto singular neste negócio. O criador Gabriel Garcia Cid revela que uma doadora de embriões comprada, por exemplo, por R$ 400 mil tem, em média, 20 prenhezes por ano, ao custo de R$ 2 mil por prenhez. “Destas 20 prenhezes, metade são machos e metade são fêmeas. Se for uma vaca de produção comprovada, vende hoje cada prenhez por uma média de R$ 20 mil. Ou seja, pode-se dizer que esta vaca tem capacidade para produzir/ faturar 10 prenhezes fêmea de R$ 20 mil, que somam R$ 200 mil anualmente, o que corresponderia a 50% do seu valor de compra”.
O segmento movimenta valores altos por um período relativamente curto. Se compararmos a compra de um apartamento de R$ 400 mil, geralmente o comprador financia o imóvel e demora muito mais do que dois anos para pagar.
Heim lembra que a Exposição Agropecuária de Londrina contribui para o fomento do setor. Os leilões da Feira de 2008 somaram R$ 21,8 milhões e a atividade comercializa tanto lotes comerciais, para engorda e abate, como animais de origem, para reprodução.
Gabriel Garcia Cid acrescenta que a exposição de Londrina se destaca nacional e internacionalmente por ser a de maior diversidade de raças entre todas as outras exposições.
“Estamos localizados no norte da região Sul do País e aqui é possível criar raças zebuínas, de melhor adaptação ao calor, e raças taurinas, de melhor adaptação ao frio. O aumento do número de criadores de raças puras, como nelore, gir, simental, limousin e guzerá, principalmente, provam que a genética desenvolvida aqui é de excelência.” Ele acrescenta que atualmente Londrina tem a terceira maior feira agropecuária do País em faturamento de pecuária, atrás apenas das duas feiras realizadas em Uberaba, Expozebu e Expoinel. A comercialização de sêmen faz parte dos negócios fechados no evento.
O criador diz ainda que “a raça Nelore movimenta em média R$ 15 milhões durante a Feira de Londrina, o que representa mais de 75% do total do faturamento da pecuária durante a exposição”.
Celso Arantes Heim lembra que a produção de sêmen envolve profissionais especializados, laboratórios específicos e setor de vendas qualificado. “E Londrina tem tudo isso. São oito escritórios de representação de revenda de sêmen. Um é paranaense, mas o restante é de empresas de genética de outros estados que veem Londrina como um pólo, uma referência para a comercialização do produto.”
Não é difícil entender o motivo. A SRP foi fundada há 62 anos em Londrina e ajudou a desenvolver o mercado de sêmen local. Heim informa que dos cerca de mil sócios da entidade, metade reside em outras cidades e cria gado puro, que exige registro. “E nós temos dentro da Rural o setor de registro genealógico, ligado à Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), que mantém sob controle a qualidade e quantidade dos animais que vivem no Estado.”
O Paraná tem perto de 10 milhões de cabeças de gado e Heim observa que, apesar da vocação para a agricultura, a pecuária contribui de forma consistente para a economia paranaense. “A prova é que Estados como Mato Grosso e Minas Gerais, que têm praticamente três vezes o tamanho do nosso, contam com 20 milhões de cabeças, assim, em termos de proporção, nosso plantel é grande, tanto que nossa capacidade de abate é bem menor do que a produção de carne.”
A Cidade já sediou duas centrais de inseminação e é morada de criadores que representam pelo menos 10% do rebanho do Estado. Hoje, Londrina tem fábricas de sal mineral e de ração, consumidos pelo gado. Duas importantes leiloeiras de bovinos têm sede na Cidade, assim como sucursais de veículos de comunicação ligados ao agronegócio. “Não é apenas o mercado de sêmen que contribui para a economia local”, observa o veterinário.
Heim diz que o volume de produtos para inseminação artificial comercializado no Paraná é semelhante ao de Estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que têm o dobro do rebanho paranaense. “É uma tecnologia adotada apenas em animais selecionados, nunca no pé-duro, o que prova a qualidade do nosso gado.”
Para que o rebanho se desenvolva bem, além do veterinário e do técnico agropecuário, o funcionário conhecido como “peão” é fundamental na propriedade. “Hoje nós qualificamos este funcionário, ele faz cursos de manejo, de casqueamento, para amansar o gado, enfim, o peão lida com o gado diariamente e o sucesso do rebanho depende diretamente do tipo de atendimento que ele dá aos animais. É um parceiro que, bem treinado, também reforça o manejo do gado nos procedimentos de inseminação e completa a cadeia especializada que Londrina tem no setor.”

