Praticamente encerrado, o último ano do governo Lula, na economia, não foi tudo aquilo que alguns previram, mas confirmou que, ao reforçar o mercado interno e garantir a estabilidade de preços, o País ingressou em um novo padrão de expansão econômica, mais consistente e sustentável.
Se não chegou aos 7% anuais que alguns chegaram a projetar, o PIB avançou 4,9% e, pela primeira vez em anos, ficou em linha com as previsões dos economistas de mercado. De todo modo, o resultado foi de muito bom tamanho, principalmente se considerado o desempenho da economia mundial – exceto, é claro, a China – e, também, o fato de que ainda se tratava de um ano de recuperação.
O crescimento talvez pudesse ter sido um pouco maior, caso o Banco Central não decidisse, ainda no começo do ano, elevar a taxa básica de juros em meio ponto porcentual. A elevação mostrou-se desnecessária, pois a inflação, mesmo com o aquecimento da economia, terminou abaixo da meta de 4,5%.
Já era possível prever isso na virada de 2009 para 2010, por pelo menos três fatores: 1) a deflação, a primeira em vinte anos, registrada no IGPM, índice que influencia reajustes futuros de diversos e importantes preços ao consumidor; 2) a expansão, acima da média, nos investimentos em capacidade de produção; e 3) a taxa de câmbio que, se não encerrou o ano no R$ 1,75 projetado pelo mercado, não subiu a ponto de produzir pressões inflacionárias. Mas o BC preferiu seguir a cartilha clássica e, com base num cálculo atrasado do produto potencial, optou por uma ação preventiva em algo que, nas circunstâncias, dispensava pr evenção.
Se houve surpresa, e ainda assim só para uns tantos excessivamente focados nos gastos públicos, foi no relativo bom comportamento das contas públicas. O superávit primário ficou próximo da meta de 3,5% do PIB, se for considerado os investimentos, e de 2,5% do PIB, sem eles, como vem sendo aplicado pelo governo. Além de melhora na arrecadação tributária, o que era esperado em razão do aquecimento dos negócios, a pressão salarial do funcionalismo, realmente forte em 2009, arrefeceu em 2010, em passo com as regras de reajuste. A manutenção de reajustes reais no salário mínimo, nos programas de transferência de renda e nos benefícios da Previdência Social, previsivelmente, não teve impacto líquido relevante no resultado final do setor público.
A preocupar, restou o setor externo. O déficit em conta corrente escalou de 1,2% do PIB, em dezembro de 2009, para mais de 3% do PIB, em fins de 2010. Muitos economistas insistiram, ao longo do ano, na idéia de que o saldo comercial, os investimentos estrangeiros diretos, associados ao saldo comercial, cobririam com tranqüilidade o buraco que se abria.
De fato, o IED registrou expansão de quase 15%, em relação a 2009, alcançando volume total próximo a US$ 40 bilhões. Mas a balança comercial encerrou o ano com um mirrado superávit de US$ 10 bilhões. A falada folga, como se viu, não foi assim tão tranqüilizadora – e o mesmo, com mais ênfase, pode-se dizer em relação ao futuro próximo.
Com a economia mundial em recuperação lenta, era de se esperar que os estímulos dos governos continuassem, como continuaram. Assim, o reforço da liquidez internacional, sem a correspondente resposta da atividade econômica nos países ricos, fazia crer na manutenção dos fluxos de recursos externos para emergentes de bom desempenho, entre os quais o Brasil se destaca.
Mas, problemas de solvência localizados, como os que afetaram Dubai, Grécia, Espanha e Portugal, em fins de 2009, refrearam o ânimo dos investidores. Em medida maior do que esperada, eles preferiram a proteção de refúgios mais tradicionais e conservadores, nas próprias economias mais desenvolvidas.
