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O mundo pós crise

02-09-2009

Fernando Canzian, Folha de São Paulo.

NOVA YORK - A pior crise econômico-financeira global desde 1929 vai aos poucos soltando as garras e diminuindo a pressão sobre vários países.

 

 
Entre os emergentes, a maioria voltou à rota do crescimento. Nos avançados, duas das maiores economias da Europa (França e Alemanha) saíram da recessão no segundo trimestre de 2009. O Japão, idem. Os EUA, epicentro do problema, também já devem estar girando no azul neste exato momento.

 

O pior fica para trás.

 

Em comum, os países mais ricos têm agora um duplo desafio: diminuir o enorme e perigoso rombo aberto em suas contas públicas para conter a crise e baixar o elevado desemprego.

 

Embora os mercados financeiros e as Bolsas apresentem cada vez mais sinais de estabilização e valorização, isso se dá por uma combinação perversa: as empresas cortaram custos e empregos para aumentar lucros e o retorno aos acionistas.

 

Milhões podem continuar desempregados ou perdendo suas casas. E, mesmo assim, o mercado e a economia podem manter uma trajetória ascendente, embora longe de todo o seu potencial.

 

Esse é o grande risco daqui em diante. Pois o mundo não sai apenas diferente da crise. Ele terá, em conjunto, de fazer um ajuste gigantesco e mudar a lógica vigente.

 

Em resumo, não se pode mais contar com os EUA como "aspiradores" da produção de grandes economias exportadoras como China, Alemanha e Japão.

 

Em vez de consumir financiados com crédito alheio, os EUA certamente também querem agora exportar e poupar mais. E consumir menos. Já fazem isso.

 

Ou seja: os EUA pretendem se comportar mais como China do que como EUA daqui em diante.

 

Se os EUA não vão mais manter importações e déficits comerciais gigantescos como vinham fazendo, países como China, Alemanha e Japão também não terão como manter exportações e superávits elevados vendendo seus produtos aos norte-americanos.

 

Serão obrigados a depender mais de seus próprios mercados. Ou a financiar países compradores em outros lugares. O que é um risco.
O exemplo chinês: depois de o consumo norte-americano desabar entre outubro e junho, a China pisou fundo na concessão interna de crédito. Só as vendas de automóveis saltaram 63,5% em julho sobre igual mês de 2008.

 

Nos primeiros seis meses do ano, os bancos chineses emprestaram a cifra recorde de US$ 1,1 trilhão. Agora, teme-se que os gastos tenham vindo rápido demais. E que os tomadores desse dinheiro (assim como os que compraram automóveis) não tenham como pagar mais adiante.

 

Nas últimas semanas, a Bolsa de Xangai perdeu mais de um terço da valorização acumulada no ano por conta desse temor. Seria agora a "bolha" chinesa?

 

Outro exemplo, mais complexo: com a exceção dos anos em que lutou na Segunda Guerra, os EUA caminham para o maior déficit público da história. O equivalente a 13% de seu PIB, ou cerca de US$ 1,8 trilhão.

 

O país costumava financiar seus rombos com dinheiro alheio, principalmente da China. Mas, temendo um descontrole das contas públicas norte-americanas, o governo chinês se desfez em junho de US$ 25 bilhões em títulos do governo dos EUA. Foi a maior desova em um mês.

 

Até 2006, China e Hong Kong costumavam comprar a metade dos títulos emitidos pelo Tesouro dos EUA para financiar seu déficit. Isso caiu a 22% no ano passado e a menos de 10% nos primeiros seis meses deste ano.

 

As consequências desse tipo de movimento e da transformação pela qual os EUA terão de passar a fim de reduzir o endividamento recorde de suas famílias, empresas e Estado são ainda difíceis de avaliar.

 

Acima de tudo, a grande incógnita: conseguirá o governo Barack Obama apertar a regulamentação sobre a indústria financeira norte-americana? A mesma que cria instrumentos "exóticos" lucrativos e perigosos enquanto financia campanhas de centenas de congressistas?

 

Navegando "de bolha em bolha", o mundo desta vez parece ter escapado do pior.
 
Fernando Canzian

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